terça-feira, 31 de janeiro de 2012

CASA DE CANILHAS - 2


Viaduto da Pala à passagem do comboio
Vista de cima do cais de Porto Antigo
Os três "gémeos" no cais de Porto Antigo
  
  Passámos pelo portão de entrada, descemos a rampa de acesso e deparámos com uma bela casa solarenga, ostentando um brasão na fachada. Mas o nosso olhar foi de imediato atraído pelo soberbo espectáculo que tínhamos em frente: ao fundo das encostas cobertas de vinhedos, espreguiçava-se o Douro, languidamente, saboreando no seu percurso o calmo entardecer. Esta é para mim uma das mais belas paisagens que Portugal tem para oferecer a quem as sabe apreciar. Fomos recebidos com toda a simpatia pela proprietária, D. Maria, que nos mostrou os principais aposentos da casa, todos extremamente confortáveis e de que realço a sala de estar, decorada com requinte e bom gosto, onde crepitava um acolhedor lume na lareira. Mais uma vez, das enormes janelas e portadas, desenhava-se o belo quadro que a pródiga natureza do local punha diante dos nossos olhos. Fomos em seguida para o nosso quarto, acomodar-nos e aproveitar a fantástica vista antes do anoitecer. Arrefeceu rápida e intensamente e entretanto eram horas de jantar. Esta vida errante faz abrir o apetite! A nosso pedido, aconselharam-nos a tasca do Zéquinha, para acalmar as insistentes reclamações do estômago. E lá fomos, a caminho de Mesão Frio, que dista apenas dois ou três quilómetros. As ruas estavam desertas, percorridas apenas pelo frio cortante. No centro, descobrimos o que procurávamos, um estabelecimento sem pretensões. O dono, muito prestável, conduziu-nos ao primeiro andar, onde se encontrava já um casal a ocupar uma das quatro mesas disponíveis. Rapidamente apareceram umas azeitonas, pequenas em tamanho mas grandes no paladar, bem acompanhadas por um caneco de vinho tinto de divinal sabor e um pão caseiro a não destoar. Logo de seguida, duas belas pataniscas acabadas de cozinhar! Eu já não precisava de mais nada. Ainda assim, encomendámos uns lombinhos de vitela. E fizemos bem. Pouco depois, trouxeram-nos três medalhões de carne com batatas fritas às rodelas e umas pequenas couves tronchudas, acompanhadas por uma salada de tomate. A carne quase se desfazia ao contacto da faca. O sabor, indescritível... Até as batatas, as couves e a salada tinham um sabor incomparável! Também é nisto que Portugal dá cartas! Onde é que a comida tem este sabor? Rematámos com um leite creme, o elo mais fraco da refeição, secundado por um café. O preço não foi de tasca, mas demo-lo por bem empregue. Satisfeitos, regressámos à Casa de Canilhas, onde nos aconchegámos junto do belo fogo que ardia no acolhedor salão. Ainda folheámos uns livros sobre o Douro, claro, enquanto ocasionalmente o olhávamos lá em baixo, pelas vidraças das grandes portadas, brilhando sob o luar. Amodorrados pelo calor da lareira e pelo estômago extasiado, recolhemo-nos ao quarto, para uma noite de sono repousante.

Vista perto da estação de Pala
       No dia seguinte, o mesmo regalo para a vista. O sol ainda não aparecera, escondido lá para os lados da Régua, a nascente. A bruma pairava sobre os cumes dos montes vizinhos, escondendo também alguns trechos do rio. Quando começou a espreitar, houve uma explosão de cor e de mudanças sucessivas de tonalidade. Não há pintor que disponha de tal paleta de cores! Com alguma relutância, dirigimo-nos à sala do pequeno almoço, onde já nos esperava uma lauta refeição. Deliciosos pãezinhos, variadas compotas e doces caseiros, saborosos queijos regionais, leite, café, enfim, novo festim para o paladar! E como tudo tem um final, especialmente o que é bom, chegou a hora de partir. Partimos pela N108, por Barqueiros, Stª Marinha do Zêzere, Ancede. Esta estrada é para se percorrer muito devagar, apreciando as lindas paisagens e o Douro sempre presente. As vistas alargam-se a partir da estação ferroviária de Pala. Aí o rio agiganta-se, formando um enorme lago, pois a barragem de Carrapatelo já não fica longe. É uma zona de enorme beleza, com os viadutos ferroviários altíssimos e o cais de Porto Antigo ao longe. Atravessamos a bela ponte rodoviária e paramos no parque de estacionamento do hotel de Porto Antigo. Aí repousam no inverno os três navios de cruzeiro no Douro, Fernão de Magalhães, Infante D. Henrique e Vasco da Gama. São quase horas de almoço e apressamo-nos a continuar rumo a Cinfães, onde chegamos pouco depois. Logo à entrada, o restaurante "O Rabelo". Nem procuramos mais. Boa comida, melhor bebida, um anho assado no forno, excelente vinho tinto, sobremesa "buffet", mas má surpresa quando chegou a conta. E o café ao preço de Espanha: 0,95€ por um café em Cinfães... Atravessámos depois a serra de Montemuro pela Nº 321 até Castro Daire, estrada muito bonita, habitualmente cortada quando neva, e a N 2 até Viseu. Depois o IP-3 até Coimbra, com muitas obras nos viadutos da barragem da Aguieira, N1 até Leiria e A-8 até Casa.
      Excelente fim de semana sob todos os aspectos: o tempo, a gastronomia, e a qualidade do alojamento da Casa de Canilhas. Ansiamos já pela próxima escapadela... 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

CASA DE CANILHAS - 1

Casa de Canilhas
Vista da Casa de Canilhas
Casa de Canilhas
     Neste último fim de semana de Janeiro, decidi aproveitar os continuados dias de sol luminoso e céu azul e parti para Norte, rumo ao Douro. O destino previamente traçado, era a Casa de Canilhas, turismo rural às portas de Mesão Frio que estava "debaixo de olho" já há algum tempo à espera de vez. Partimos cedo, de modo a estarmos às 9 horas no Intermarché de Óbidos, local habitual de abastecimento de gasóleo, jornais e alguns produtos de última hora. Seguimos pela A-8 até Leiria, continuando depois pela Nº 1 até Albergaria-a-Velha. Depois da introdução de portagens nas antigas SCUT, optei por não as utilizar. Assim, continuei pela saudosa e velhinha Nº 16 e suas curvinhas, embora de grande beleza paisagística. Quando se tem muito tempo disponível, como é o caso, esta é a melhor opção, sob todos os aspectos: permite-nos saborear demoradamente as paisagens, parar em qualquer local que nos aprouver, andar muito mais devagar e calmamente. Esta estrada sinuosa, sempre ladeada pela antiga linha ferroviária do "Vouguinha", agora transformada em ecopista, tem também o rio Vouga como companhia até S. Pedro do Sul. Parámos um pouco antes do Poço de S. Tiago, local carismático com a sua bela ponte que, com o seu arco reflectido nas águas do rio forma um círculo perfeito e aí fizémos um piquenique. Mais reconfortados, prosseguimos por Oliveira de Frades, Vouzela e em S. Pedro do Sul, inflectimos para Norte, pela Nº 228 até Castro Daire, continuando pela Nº 2 até Lamego e Peso da Régua. É um regressar ao Portugal profundo, das pequenas aldeias de nomes pitorescos, das fontes a brotar com abundância, das tascas prontas a receber-nos com seus petiscos e saborosos acepipes. As portagens também têm as suas vantagens... Peso da Régua continua com as suas obras de há meses, que transformaram a zona da estação e marginal do Douro num estaleiro, obrigando-nos a percorrer a principal artéria comercial da cidade, o que nos permite ver as montras das lojas sem sair do carro... Passamos em seguida pelas Caldas de Moledo e mais uma das quintas da "Ferreirinha". Logo a seguir, um desvio à direita indica-nos Vila Marim. Sempre em busca de novos caminhos, tomámos essa estrada municipal, muito estreita, com grandes declives, mas de belas vistas para baixo, para o Douro vendo-se em frente do outro lado a aldeia de Penajoia. Já entardecia e depois de muitas voltas, muitas aldeolas, muitas subidas e descidas, finalmente mesmo às portas de Mesão Frio, deparámos com o nosso destino: a Casa de Canilhas.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

DEZEMBRO NA BEIRA BAIXA - 4

Idanha-a-Velha com Monsanto ao longe
Termas de Monfortinho
Ponte romana de Segura, que vigia por cima...
Placa afixada no pelourinho de Salvaterra
      E ao quarto dia o tempo mantinha-se com céu limpo e frio. Este dia estava destinado à zona da raia, na Beira Baixa profunda. Depois da rotina das partidas, paragem no Intermarché de Idanha para compra de pão, fruta e peixe. O peixe acabou por ficar pela intenção, pois aparentava ali estar já há uns dias à espera de comprador... Depois de novo abastecimento de gasóleo, parti com rumo a Alcafozes, aí virando para Norte pela Nº 332. Desta vez não parei em nenhum dos ex-libris da Beira Baixa: Idanha-a-Velha, Monsanto ou Penha Garcia, localidades que já visitei inúmeras vezes. No entanto, antes de chegar a Idanha-a-Velha, há um local com uma excelente panorâmica sobre esta aldeia, com Monsanto a espreitar ao longe. Parei, para absorver aquele silêncio e fotografar o local. Prossegui, atravessando a ponte sobre o rio Ponsul até Medelim. Chegado a esta aldeia, virei à direita para a Nº 239. A partir daqui começa a ver-se a montanha onde se incrusta Monsanto a aproximar-se à direita, vendo-se cada vez mais distintamente a povoação coroada pelo seu castelo. Passei ao largo e pouco depois, desta vez ao lado esquerdo, outra montanha, a de Penha Garcia. Continuei devagar, atravessando a planície, com cada vez mais raros vestígios de povoamento. O trânsito era também muito escasso. Por fim, uma povoação: Monfortinho, com mais que um aviso a indicar que as Termas não eram ali, mas uns 3 Km mais à frente... Embora sem necessitar da indicação, segui o conselho e pouco depois entrava nas Termas de Monfortinho. Esta localidade causa-me sempre alguma surpresa desde a primeira vez que a visitei, há mais de 30 anos. Longe de tudo, a mais de 50 Km da sede de concelho, Idanha-a-Nova, numa das zonas de mais baixa densidade populacional do país, separada de Espanha pelo rio Erges, estava completamente isolada até há alguns anos, quando se abriu uma nova fronteira com o país vizinho. Apesar desse novo acesso, a sensação de isolamento e desterro mantém-se. No entanto a localidade tem muitos restaurantes, pensões, cafés, dois grandes hotéis e alguns serviços públicos. O motor económico são as termas, claro, afamadas e bastante frequentadas, mas ainda assim insuficientes para garantir a viabilidade económica de toda esta oferta turística, como se pode comprovar por alguns edifícios em ruínas e outros ao abandono. Parei junto às termas e, passando pelo marco fronteiriço que se situa mesmo em frente, fui até ao rio Erges, que nos separa de Espanha. Aqui almocei, na autocaravana. Depois do café, tomado num dos inúmeros estabelecimentos  da especialidade, pus-me de novo ao caminho, atravessando a fronteira.

        O plano era voltar a entrar em Portugal mais abaixo, por uma fronteira que nunca utilizei, a de Salvaterra do Extremo. Cheguei a Zarza la Mayor, pequena localidade adormecida na Extremadura espanhola e encontrei uma placa a indicar que a estrada pretendida estava encerrada para obras. Assim, tive que continuar até Piedras Albas pela Ex-117 e aí virar à direita para Portugal pela Ex-207, até Segura. Esta que já foi uma das principais fronteiras portuguesas, das poucas que se mantinham abertas todo o ano, está agora deserta. Ali passa um veículo de longe em longe, a sacudir a monotonia. Atravessei a ponte romana sobre o Erges e parei do lado português. Há ali uns sanitários públicos, muito limpos, curiosamente o primeiro  edifício português para quem por ali entra! Ao longe, vigia a povoação de Segura. Estas localidades fronteiriças, viviam do movimento trans-fronteiriço, dos serviços aduaneiros, da guarda fiscal, antes da abertura do espaço Schengen na Europa. Agora, Segura é mais uma localidade de velhos ao sol, silenciosa, despertando a cada carro que passa. Logo após, aparece um cruzamento à direita, para Salvaterra do Extremo. Estrada muito estreita, mau piso, mas arrisquei. Esta é uma das poucas localidades desta província que ainda não tinha visitado. Não me cruzei com qualquer viatura até lá chegar. Outra aldeia em silêncio, alguns idosos sentados em bancos a gozar o sol já em declínio, gatos, muitos gatos, talvez mais que pessoas e, surpresa, algumas crianças! De qualquer forma, para o isolamento em que está esta povoação, as enormes distâncias a percorrer para aceder a qualquer serviço, a sua dimensão é bastante razoável. Por ali circulei a pé, claro, que nas ruelas mal cabe um carro. Gosto sempre de percorrer algumas ruas, ver o género de habitações, cumprimentar as pessoas, que em alguns casos me olham com desconfiança. Feito o reconhecimento, voltei, por Zebreira, outra localidade com alguma dimensão, com uma escola primária linda, dos primeiros tempos do Estado Novo, que atravessei sem parar, continuando pela Nº 240, virando depois à direita para a Nº 353, até ao parque e barragem, onde cheguei antes do anoitecer. O parque estava quase deserto e escuro, nesta época do ano, durante a semana são raros os excêntricos como eu...  Preparar o jantar, telejornal, leituras e...cama.

        O dia seguinte foi destinado ao regresso. Ainda dei um passeio pelas margens da barragem, de despedida daquele silêncio só quebrado pelo canto da passarada e os chocalhos das vacas. O caminho de volta, fez-se pela mesma estrada, até Castelo Branco, onde entrei na A-23, até ao nó do IC-8, por onde entrei, para não voltar pelo mesmo percurso. Assim, só parei em Pedrógão Grande para almoçar junto à barragem do Cabril e continuei depois até Pombal, onde entrei na Nº1 (IC-2), até Leiria e A-8 até Peniche. Foram cinco dias bem aproveitados, sempre com sol, embora muito frios. Claro que a curta duração dos dias não permite grandes passeios, tendo muitas horas nocturnas para serem aproveitadas de outras formas...

domingo, 15 de janeiro de 2012

DEZEMBRO NA BEIRA BAIXA - 3

Belver
Portas de Ródão
Parque de campismo de Idanha
Barragem Marechal Carmona
O terceiro dia amanheceu azul, como os anteriores. Era altura de partir. No entanto, como a manhã estava tão bonita, resolvi dar ainda um passeio a pé até à barragem e à praia fluvial. Nem vivalma! Regressei, fiz as contas na recepção do parque, aqui sempre reduzidas, e lá saí, rumo a Belver pela estrada municipal que a liga a Ortiga, passando pelo parque. Belver é uma povoação muito bonita, uma verdadeira esplanada debruçada sobre o Tejo. É sempre retemperador para os olhos, parar num dos miradouros ali existentes e espraiar a vista pelo rio, a ponte, o castelo, a linha de comboio, o caminho pedestre que vai pelo passadiço até ao Alamal... Atravessei a referida ponte e pouco depois entrava em Gavião. É uma vila simpática, muito envelhecida, um pouco esquecida desde a abertura da A-23. Talvez recupere agora um pouco do anterior protagonismo com a introdução de portagens na antiga SCUT... Recordo-me de aqui passar inúmeras vezes e de almoçar outras tantas. O restaurante que tinha em mente utilizar, tinha mudado de nome, de gerência e sobretudo de preços. Não sei que clientes pensa atrair por aqueles lados com semelhantes preços... Acabei por entrar numa churrasqueira e ali almocei, no meio de divertidos velhotes, camionistas e bombeiros. Prossegui pela antiga estrada que tantas vezes percorri, a Nº 118, por Nisa e Vila Velha de Ródão. Aqui chegados, é obrigatório parar junto à velha ponte metálica sobre o Tejo, que separa os distritos de Portalegre e Castelo Branco. Há sinais de decrepitude por todo o lado. O posto de combustíveis que havia mesmo junto à ponte, está encerrado. O restaurante ao lado, que servia uns divinais peixinhos do rio, com uma soberba varanda sobre o Tejo, também. A vista que daqui se alcança é deslumbrante. As Portas de Ródão ficam mesmo em frente; à direita em cima, o velho castelo do rei Vamba; mesmo ao lado, num plano superior, corre a linha ferroviária. Continuei, atravessando a vila, passando pelo restaurante "O Júlio" onde por vezes almoço, agora pela Nº 18, a certa altura paralela à A-23, até Castelo Branco. Sem entrar na cidade, contorno-a, prosseguindo agora pela Nº 233, por Escalos de Cima, até à ponte sobre a ribeira de Alpreade, local onde se vira à direita para a Nº 353, por Oledo, localidade que se atravessa sobre paralelepípedos, com muitos velhinhos a procurar uma réstea de sol, e pouco depois entro na rotunda que serve de porta de entrada a Idanha-a-Nova. Aqui, há uns anos atrás existia um supermercado chamado Comepreços, onde gostava de entrar porque tinha sempre os artigos mais inesperados para quem vinha do litoral e a módicos preços. Agora, sinal dos tempos, é o Minipreço. Virei à direita com o objectivo de ir ao Intermarché, abastecer de gasóleo e comprar o jantar. Cumprida a missão, fui em busca do parque de campismo que fica num local paradisíaco, mesmo à beira da barragem Marechal Carmona, a uns 5 Km da vila. Um pouco antes do parque aparece uma rotunda e ali está a barragem, com uma vista espectacular, um enorme espelho de água azul, com uma ilha cheia de vegetação no meio e ao longe a inconfundível silhueta de Monsanto. O parque é enorme, tão grande que tem uma parte substancial desactivada. Esta dimensão justificava-se quando pertencia à autarquia e os preços eram bem mais convidativos. Agora tem muitos mais bungalows que então, mas as instalações degradaram-se um pouco. No entanto, continua a ser em minha opinião, um dos melhores parques de campismo do país. O único som audível na maior parte do dia e da noite, são os chocalhos das vacas que pastam à solta pelas margens da barragem. É o local ideal para quem gosta de silêncio, precisa descansar, ou simplesmente estar junto da natureza e das coisas belas, como eu.

sábado, 14 de janeiro de 2012

DEZEMBRO NA BEIRA BAIXA - 2

Comboio regional Entroncamento-Covilhã
Estação de Belver, vigiada pelo castelo
Ponte da Ribeira da Carpinteira
O segundo dia estava destinado a viajar de comboio até à Covilhã, actual estação terminal da linha da Beira Baixa, desde que o troço Guarda-Covilhã foi encerrado para "manutenção", designação habitualmente utilizada como prelúdio do encerramento definitivo. Levantar cedo, cuidados de higiene, pequeno almoço, arranjar um lanche para a viagem, verificação de conteúdo da mochila e lá me pus a caminho do apeadeiro mesmo em frente do parque. O tempo estava muito fresco, mas com céu azul. Menos de cinco minutos passados, chegava o comboio, pouco depois das 8,30h. Trazia alguns passageiros, cujo destino era na sua maioria Castelo Branco, como verifiquei depois. Faço algumas vezes este percurso, pelo prazer de viajar sempre à beira do rio, sendo o trajecto mais bonito entre V N da Barquinha e Ródão, sempre junto ao Tejo. Logo a seguir à barragem de Belver, vem a estação com o mesmo nome, com a praia fluvial do Alamal mesmo em frente do outro lado do rio, com um pequeno hotel da Inatel e um espectacular passadiço de madeira suspenso sobre as águas do rio que vai desde aqui até à ponte metálica ao pé da estação. O comboio prossegue, em alguns troços de forma lenta, passando por pequenos ancoradouros, pela barragem de Fratel, numa sucessão de pontões e alguns túneis, até que, num último, atravessamos as portas de Ródão e chegamos à vila que faz jus ao nome, pois é actualmente a que tem a população mais envelhecida de Portugal: Vila Velha de Ródão. Por vezes saio aqui, vou ao restaurante O Júlio, comer uns peixinhos do rio (recomendo) e regresso no comboio seguinte. Desta vez continuo. Aqui separamo-nos do Tejo e a viagem torna-se mais confortável, pois antes de Ródão as travessas de madeira foram substituídas por betão, que dão outra estabilidade e segurança. A linha, que até há pouco só estava electrificada até Castelo Branco, já está até ao seu termo, na Covilhã, o que também contribui para o conforto da viagem. Esta agora faz-se quase paralelamente à A-23 até Castelo Branco. O comboio detém-se nesta cidade alguns minutos e pouco depois prossegue, agora com menos passageiros. As estações estão desertas, umas ao abandono, outras recuperadas, mas fechadas. Agora atravessamos a paisagem característica da Beira Baixa, com as suas planícies, olival, alguns rebanhos, até que começa a aparecer do lado esquerdo a serra da Gardunha com seus picos rochosos, por alturas de Soalheira, Castelo Novo e Alpedrinha, aldeias rústicas de gloriosos passados que valem bem uma visita mais demorada. Em seguida o comboio faz uma longa curva, contornando a serra e pouco depois entra na Cova da Beira, deixando para trás a conhecida campina de Idanha, detendo-se pouco depois no Fundão. Aqui sobem a bordo muitos estudantes que frequentam a UBI na Covilhã. O comboio atravessa a cidade e sua zona industrial com uma dimensão razoável, em seguida o rio Zêzere, Tortosendo e pouco depois chegamos à Covilhã, são 11,15h. A estação está em obras. O regresso será às 13,05h, o que me permite ir atravessar a ponte da Ribeira da Carpinteira, obra emblemática da Covilhã que ainda não conhecia. Para isso tenho que trepar por ruas íngremes e depois de uma boa suadela lá cheguei. É de facto uma obra digna de ser apreciada e bastante útil à cidade já que liga um bairro populoso da periferia, ao centro, percurso que anteriormente era efectuado por estrada com uma enorme extensão e declives. Atravessei-a como pretendia, voltei e fui petiscar numa tasca até serem horas do regresso. Às 13,06h, pontualmente, arrancámos de volta e cheguei à barragem de Belver antes das 16h. Ainda a tempo de passear pelas imediações, até o dia começar a declinar e o frio a convidar ao recolhimento.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

DEZEMBRO NA BEIRA BAIXA - 1


Praia fluvial de Ortiga
Apeadeiro da barragem de Belver
Belver
     No início do passado mês de Dezembro, como a previsão apontava para céu limpo durante uns dias, decidi aproveitar e dar um salto à Beira Baixa. Para isso, resolvi tomar como pontos de apoio dois parques de campismo de que gosto muito: o parque de Ortiga, concelho de Mação, mesmo junto da barragem de Belver, no rio Tejo e o parque da Orbitur em Idanha a Nova.  Saí de S.Bernardino com um dia esplendoroso. Comecei pela A15, como é habitual quando o destino é Ortiga. Saí em Santarém, atravessei a ponte Salgueiro Maia, e a primeira paragem deu-se no Pingo Doce de Almeirim, onde habitualmente abasteço gasóleo e alguns produtos em falta. Utilizo frequentemente o parque de Ortiga porque é barato, muito bem localizado, junto ao rio Tejo e com a linha da Beira Baixa com o apeadeiro da barragem de Belver mesmo ao lado do parque, um bom restaurante junto da linha (restaurante Lena), uma bela praia fluvial, muito agradável no Verão e sempre bonita nas outras estações do ano, muito calmo, limpo, excelentes instalações, de tal modo que há vários ingleses que ali estabeleceram o seu "poiso" permanente e lá vivem durante todo o ano nas suas caravanas e autocaravanas. Por vezes, em alternativa ao Pingo Doce de Almeirim, páro no de Chamusca. Já antes da introdução de portagens na A-23, costumava utilizar a estrada N 118, de Almeirim a Abrantes, passando pelas curvas do Tramagal. O desconforto das curvas é compensado pelas paisagens proporcionadas pelo rio Tejo, companhia sempre próxima na maior parte do trajecto. Depois há as laranjas fresquinhas, sempre acabadas de apanhar, com aquele viço inconfundível, à venda à beira da estrada, em Pinheiro Grande e Carregueira. Sempre se trocam dois dedos de conversa com aquela gente simples, que assim aconchega a magra reforma com que vivem. No fim do Verão, são os melões... Este era um dia para relaxar um pouco, pois havia tempo de sobra. Nova paragem no Intermarché de Abrantes, desta vez para comprar o almoço, que foi ingerido na autocaravana no excelente parque da cidade, do programa Pólis, à beira do Tejo e da ponte ferroviária que o atravessa. Café na esplanada ali situada, debruçada sobre o rio, com o sol a acariciar as faces, como se estivéssemos em Junho! Por fim, horas de partir. Entrei na A-23, na última utilização sem portagens, saindo pouco depois na saída 12 para Ortiga. Cerca de 5 Km depois, lá está o parque de campismo. Registo, instalação, ligação de electricidade, troca de algumas palavras com os ingleses que entretanto já são conhecidos dos habituais clientes, passeio até ao rio e linha do comboio e regresso, pois a partir das 16 horas começa a arrefecer e logo a seguir a escurecer. São as desvantagens desta época do ano...  

sábado, 7 de janeiro de 2012

ALTO MINHO COM SALTO À GALIZA (2)

Estrada La Guardia-Baiona
E foi o que fizémos: a estrada está em obras numa boa parte do percurso, para construir uma grande berma do lado do mar. Mesmo assim, pudemos parar com frequência, usufruindo das soberbas paisagens que toda ela nos proporciona. Com os olhos regalados, reentrámos em terras lusas pela ponte de Cerveira, a mesma por onde tínhamos saído. Fizemos o percurso em sentido inverso ao da manhã, por Candemil e Covas, mas como ainda tínhamos cerca de uma hora de luz do dia, decidimos subir à Serra D'Arga. Já que a jornada era destinada a oferecer um brinde à vista, pois que terminasse em beleza! Começámos a subida por uma estrada íngreme, com o piso todo enlameado por obras a decorrer. A subida foi-se tornando cada vez mais acentuada, sempre com o piso molhado e extremamente escorregadio. Há pontos bastante perigosos, pelo acentuado declive e ausência de protecção por rails ou qualquer outra. O dia começou a declinar e, na perspectiva de termos que regressar já de noite por estradas desconhecidas e perigosas, com forte probabilidade de terem gelo em algumas curvas, decidimos ir apenas até Arga de S. João e voltar para trás. Tempo apenas para algumas fotografias de ocasião e regresso ao parque de Covas ao anoitecer. A noite estava menos fria do que a anterior, mas ainda a necessitar de aquecimento suplementar...
Barra de Viana do Castelo
No dia seguinte não havia geada no solo nem o frio agredia as faces. Depois dos cuidados de higiene, do pequeno almoço tomado, do pagamento efectuado e das despedidas, pusémo-nos ao caminho, percorrendo a estrada N 301 que liga Paredes de Coura a Caminha. Esta estrada sinuosa é de grande beleza paisagística já que bordeja o rio Coura na maior parte do seu trajecto e transitamos sempre debaixo de verdejante arvoredo. Entrámos em Caminha, vila muito bonita, que assiste à entrada do rio Minho no Atlântico e continuámos pela velha estrada Nº 13, que também tem quase sempre o mar por perto. Atravessámos Viana do Castelo e entrámos na A28, pois tínhamos combinado um almoço com amigos em Barcelos e o tempo já escasseava. Saímos no nó 9 de Esposende e dali a Barcelos foi um pulo. Era dia de feira, uma das maiores e mais antigas do país, o que dificultou bastante a entrada e depois o estacionamento na cidade. Almoçámos, conversámos e a meio da tarde arrancámos rumo a Viana do Castelo, desta feita pela Nº 103. Ainda parámos no ELeclerc de Darque, mesmo junto ao Santoinho, para abastecimentos. Depois fomos em busca do parque da Orbitur, no Cabedelo, mesmo na foz do rio Lima e da barra de Viana. O parque situa-se mesmo em frente da praia, óptima localização e tem muitas sombras proporcionadas por gigantescos pinheiros. Fica-se ali muito bem no Verão, certamente. Ainda deu tempo para um passeio ao entardecer, no areal. No dia seguinte estava de novo um frio cortante. Ainda tentámos voltar à praia para umas últimas fotos, mas o passadiço de madeira estava coberto de gelo o que impediu o nosso intento. Assim, partimos, gelados, até ao Eleclerc de Darque, de novo, onde abastecemos de gasóleo e de pão fresco. O regresso fez-se pela Nº 13, até o trânsito se tornar caótico e obrigar-nos a entrar na A28 até ao Porto. Atravessámos o Douro pela Arrábida e entrámos na Nº1 nos Carvalhos. Parámos logo aí, no santuário da Sª da Saúde para almoço e depois continuámos sem mais história até Leiria, onde, como sempre,  entrámos na A8 até casa. E assim chegámos ao termo deste terrível ano de 2011, ano de grandes mudanças em termos pessoais, mas que finda da melhor forma: a passear e a contribuir para reanimar a nossa economia...  

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

ALTO MINHO COM SALTO À GALIZA (1)

          Este ano decidi, pela primeira vez, dar um passeio mais alargado na semana que separa o Natal do ano novo. Bom tempo, céu azul, "ála moço", como se diz por estas bandas. Feita a última vistoria à autocaravana, partimos de S. Bernardino-Peniche, pelas 9 horas, com a paragem já habitual no Intermarché de Óbidos para abastecimentos, quer de gasóleo menos caro, quer de produtos frescos e alguns mimos. Retomada a A8, continuámos até à saída da Marinha Grande para apanhar a velhinha Nº1, redenominada IC2. Como temos muito tempo, só uso autoestradas em situação de excepção. Assim, prosseguimos rumo a Norte, com a primeira paragem num sítio já habitual para o almoço, junto a uma bela ponte desactivada sobre o rio Marnel, Lamas do Vouga. Depois do obrigatório cafézinho, continuámos na Nº1 até Gaia. Saímos no nó de Avintes, já que a ideia era atravessar o Douro na barragem de Crestuma-Lever, para fugir à costumeira travessia do Grande Porto. Foi o que fizemos, percorrendo depois a bela estrada Nº 108, sempre junto ao Douro, até Entre-os-Rios. Aqui começou a intensificar-se o trânsito, agravando-se mais ainda antes de Penafiel. Uma das desvantagens desta altura do ano é a duração da luz do dia. A intenção inicial de fazer todo o percurso por estradas secundárias teve que ser alterada face ao rápido entardecer e ao largo percurso ainda em falta. Assim, entrámos na A11 no nó de Lousada, entroncando na A3 em Braga, saindo depois na saída 13, para Paredes de Coura e V N de Cerveira, cerda das 19 horas. O objectivo era o parque de campismo de Covas, muito bem localizado, no ambiente típico do Alto Minho, debaixo de frondoso arvoredo, muita água, perto do rio Coura e da serra D'Arga. Já ali havíamos ficado há uns anos, debaixo de intenso temporal. Não há qualquer sinalização à saída da autoestrada. Não se via vivalma, dado o intenso frio que se fazia sentir. Na dúvida, socorremo-nos do GPS, instrumento em que não deposito grande confiança, com razão, como ficou logo a seguir demonstrado. Vire na primeira à esquerda, contorne a rotunda, siga 2 quilómetros, blá,blá,blá, vimo-nos enfiados no meio de uma aldeola escura numa ruela estreita e íngreme, os espelhos da autocaravana a roçar nas paredes dos casebres, filme em que já tenho participado noutras ocasiões... Mais uma vez acabei por seguir o meu instinto e não dar ouvidos à "menina" que, depois de baralhada e sempre a recalcular, acabou por se calar. Finalmente lá chegámos à entrada do parque, com os portões fechados. Depois do toque na campainha e de enregelar uns bons minutos à espera de alguém, os cumprimentos do dono, instalação, ligação de electricidade, refeição frugal, aquecimento do ambiente, telejornal no PC através do novíssimo MEO-GO, a tradicional partida de cartas e cama.
Moinhos da Gávea
Mosteiro de Oia
Baiona
        O segundo dia amanheceu luminoso mas de frio glacial. O chão do parque estalava sob os nossos pés a caminho da casa de banho. Tudo estava coberto por um manto branco e o ar picava a pele. Tomado o pequeno almoço, arrancámos para mais uma jornada. Paragem num minimercado em Covas para comprar pão fresco e tomar um café quentinho. A estrada apresentava-se perigosa em alguns locais mais sombrios, com gelo fino que nos obrigava a cuidados redobrados. No entanto isso permitia-nos apreciar melhor a grande beleza dos carvalhais ainda com as cores do Outono a espreitar-nos a cada curva. Chegados à estrada Nº 303 que liga Paredes de Coura a V N de Cerveira, parámos num local de grande beleza, os Moinhos da Gávea, moinhos de água restaurados que sucessivamente aproveitavam a força motriz de um curso de água bem provido que depois de passar por baixo de uma linda ponte, mais tarde se vai juntar ao Rio Minho.  Chegados a V N de Cerveira, atravessámos o Rio Minho e entrámos na Galiza rumo a La Guardia. O objectivo para este dia era percorrer a bela estrada entre La Guardia e Baiona, sempre à beira mar. Atravessámos La Guardia sem parar e logo o Atlântico se nos juntou. Este é um percurso para se fazer devagar, com muitas paragens, se bem que no sentido sul-norte não haja muitos locais propícios para isso. Parámos em Oia. Aqui não faltam lugares para estacionar nesta altura do ano. Pequena localidade piscatória, tem um grande mosteiro, bastante degradado, que aguarda restauro e se situa mesmo junto ao mar. Satisfeita a curiosidade, prosseguimos paralelamente a pequenas enseadas, praias sucessivas, belas vivendas plantadas literalmente em cima do mar, até que chegámos a Baiona. Esta já é uma localidade com uma dimensão razoável, com um belo porto cheio de barcos de pesca e de recreio. Tem uma grande frente de mar com uma marginal muito movimentada cheia de restaurantes e bares. Mesmo nesta altura do ano e da tão propalada crise, a frequência era muito apreciável. Como a fome apertava, aproveitámos para almoçar num típico restaurante. O prato teria que passar pelo obrigatório peixe fresco, é claro. Optámos por uns linguados fritos, bem regados por um estupendo alvarinho que mesmo com o tempo fresco caiu divinalmente. Complementámos com o tradicional caldo galego, sopa forte e saborosa. Despedimo-nos com uma daquelas chávenas "acafezadas" que tentam imitar o nosso café expresso... Depois de percorrermos a pé um troço das muralhas, onde pontifica o belo "parador", regressámos pelo mesmo percurso, desta vez com mais possibilidades de parar nos inúmeros recantos merecedores de tal atenção.