sábado, 23 de março de 2013

AMENDOEIRAS 2013 - IV

    Efectivamente, o dia seguinte amanheceu solarengo, embora frio. A neve já só se via nos locais mais abrigados, tendo desaparecido das estradas. Preparei-me pois para sair. Tomado o pequeno almoço, parti por Longroiva e pouco depois entrava em Foz Côa. Já há tempo que tinha programada uma visita ao novo museu do Côa e era isso que procurava. A sinalização está perfeita, caso raríssimo em Portugal. Todos os cruzamentos ou desvios estão devidamente assinalados com placas indicativas o que nos permite chegar ao museu, que ainda dista um pouco da cidade, sem percalços. O edifício é imponente, integrando-se perfeitamente na paisagem.



E que paisagem! A frente do museu é uma autêntica esplanada sobre o Douro, que corre placidamente lá em baixo. Ao seu lado, repousam os restos da linha férrea no troço abandonado entre Pocinho e Barca D'Alva. À direita, o rio Côa, que desagua mesmo por baixo, no Douro. O local escolhido não podia ser melhor!




Trecho final do Côa pouco antes da foz


Entro para o museu. O seu tamanho exterior, leva-nos a pensar que por dentro a exposição também será similar, o que não é o caso. Tem 7 salas em que se expõe todo o seu espólio, que ainda assim é bem interessante e merecedor de uma visita demorada e atenta.

Entrada do museu do Côa













Interior do museu




Visto o museu, saí cá para fora, para o sol e a bela paisagem. Há um atalho que desce, com um acentuado declive, até um heliporto, de onde nos sentimos suspensos sobre o vale, com a soberba vista aos nossos pés.







Embora a contragosto, regressei, pela estradinha construída para dar acesso ao museu, até à cidade, onde segui no sentido de Figueira de Castelo Rodrigo. Queria ver de novo as amendoeiras em flor no melhor local, entre Castelo Melhor e Almendra. E com sol, o espectáculo é inolvidável.


Como a tarde não tinha destino marcado, decidi ir até à estação abandonada de Almendra, cuja estrada de acesso, sem saída, começa mesmo à entrada da povoação com o mesmo nome. A manutenção da estrada deve ter terminado quando acabou o uso da linha de caminho de ferro... As encostas cobertas de amendoal e vinha sucedem-se, curva após curva. Depois de passadas algumas quintas, surge o santuário de Nª srª do Campo, com uma capela, um grande parque de merendas atravessado pela Ribeira de Aguiar que nesta altura corre bem nutrida pelas chuvas que têm caído.

Ribeira de Aguiar, à passagem pelo santuário da Senhora do Campo

Continuei pela estrada deserta de veículos, mas carregada de beleza. Logo a seguir, a entrada para a Quinta da Leda, onde agora se produz o mítico vinho Barca Velha. Como destas montanhas pedregosas se consegue extrair tão precioso néctar, milagre produzido por gerações de esforçados durienses!





O espectáculo do Douro agreste, quase deserto de gentes, prossegue, apenas se adivinhando a presença humana pelo trabalho ciclópico que nos é dado ver nas quintas e socalcos cobertos de vinha cuidadosamente tratada.





Mais umas curvas, mais uns vinhedos e finalmente, em baixo e ao longe, surge o que resta da estação de Almendra.


A estrada acaba aqui e também qualquer sinal de civilização. Nas imediações da estação, a destruição habitual. Tudo o que era possível arrancar, há muito desapareceu. Mesmo as encostas, aqui perdem o contacto com o Homem, tornando-se bravias, cobertas apenas por mato rasteiro. Um papa-reformas ali estacionado, revela-me que não estou sòzinho. Efectivamente, a meio do rio, um casal de idosos mergulha umas redes, equilibrando-se precariamente em cima de um bote. Olham-me com alguma desconfiança, talvez pelo insólito da presença humana em local tão pouco frequentado.



Depois de deambular um pouco pelo meio das ruínas da estação, absorvendo aquele cheiro inconfundível que se desprende das travessas mesmo podres e que perdura anos após o seu abandono e de gozar aquele silêncio e solidão, empreendi o regresso, percorrendo de novo, vagarosamente, a estrada deserta até ao cruzamento de Almendra e as suas amendoeiras vistosas.




A tarde ainda ia a meio, agradável, com sol e temperatura amena. Percorri devagar a estrada entre Foz Côa e Longroiva, chegando a Meda pelas 17 horas.







O dia seguinte era de regresso, adiado pelo nevão que me surpreendera agradavelmente. A estrada utilizada, a habitual, por Marialva, Celorico da Beira com paragem para compra de queijo e compotas e almoço em Gouveia. Paragem apenas em Póvoa das Quartas, para presenciar o abandono e degradação da antiga pousada de Stª Bárbara, depois estalagem e agora encerrada à espera dos vândalos. Belo panorama que se avista em frente, com a serra da Estrela polvilhada de neve e as aldeias dispersas na estrada que vai de Seia à Portela das Pedras Lavradas.


Não resisti ainda ao apelo manifestado por uma linda flor, prenunciando a Primavera e querendo dizer-me que na natureza tudo se renova, ao contrário das obras do Homem, perecíveis e tantas vezes com a existência abreviada por incompreensíveis actos de incivilidade...


terça-feira, 19 de março de 2013

AMENDOEIRAS 2013 - III

       Durante a noite, acordei com a chuva a tamborilar no tejadilho. Passado pouco tempo, porém, esse bater tornou-se mais suave, como se fosse o roçar de folhas de papel. Estranhei e como estava um frio de rachar, não me levantei, aconcheguei-me mais e voltei a adormecer. Quando amanheceu e abri a porta, fiquei extasiado com o panorama que tinha à minha frente. Caía um intenso nevão, como eu nunca tinha presenciado e o parque estava coberto por um manto branco que já tinha uns bons centímetros.


Fiquei maravilhado! Lá fui até à casa de banho, pé ante pé, mas a neve estava muito fofa, não havia ainda qualquer perigo. Tirei rapidamente a conclusão que os planos se tinham alterado e que o dia teria que ser passado por ali. Tomado o pequeno almoço, fui ver como estava a cidade. A rua à saída já apresentava o piso gelado por baixo da neve, tornando-se perigosa. Com a inclinação, a progressão era cansativa e muito lenta. Na avenida principal, cujo piso é de paralelepípedos, só circulavam viaturas dos bombeiros e da Protecção Civil. Regressei, pois o frio penetrava rapidamente através das calças e na pele da cara. Impossibilitado de sair, tive que recorrer à despensa. A electricidade começou a falhar e a faltar por largos períodos, o que impedia o acesso a internet fixa e ao aquecimento, demasiado potente para a instalação eléctrica autónoma da autocaravana. Logo que falhava, a temperatura baixava rapidamente.



O dia teve que ser passado por ali, já que a neve caiu com intensidade até ao declinar da tarde, quando já se acumulavam uns 20 cm. Continuou a cair um género de areia gelada, um granizo miúdo. Todo o norte do país estava debaixo de um manto branco e gelado, portanto não havia maneira de sair dali.






Ao anoitecer parou de nevar e o frio aumentou bastante mais. Durante a noite, de tempos a tempos, caía um bloco de neve do tejadilho para o pára-brisas e capot, que me provocava um susto.







De manhã já não nevava. O céu estava plúmbeo, ameaçando com mais neve. E se recomeçasse a cair? Eu já fazia contas a mais um ou dois dias ali retido. O espectáculo era inolvidável, mas agora já chegava... Entretanto, começou a chover. Fiquei com a esperança que derretesse a neve acumulada, mas parou logo a seguir. Fui dar uma volta pela cidade. Estava tudo parado, com as escolas encerradas, mas já se viam pessoas na rua. As estradas tinham uma camada de gelo por baixo da neve e logo vi que tinha que ficar mais um dia sem sair dali. À tarde o tempo melhorou e começou o degelo em vários pontos. De cima do tejadilho corria um rego de água sem cessar. À noite já havia bons bocados de estrada à vista, o que me deu alguma esperança de no dia seguinte poder sair.














Aqui fica um pequeno vídeo que mostra como a neve caía no primeiro dia de manhã.



quarta-feira, 13 de março de 2013

AMENDOEIRAS 2013 - ll

     Depois da grande volta pelas amendoeiras, o dia estava destinado a ser mais calmo. Percurso já habitual e de visita obrigatória quando por ali estou, é Freixo de Numão, sua estação de caminho de ferro junto ao Douro e o almoço no restaurante Bago de Ouro, em frente. Parti a meio da manhã, com sol mas também um pouco de frio. Como cheguei ainda cedo à estação, fui até ao pequeno cais fluvial.

Cais de Freixo de Numão
Depois de fazer tempo, subi até ao restaurante que, apesar de ser dia de semana, ficar no fim de uma longa estrada sem saída e numa zona de fraquíssima densidade populacional, se encontrava razoavelmente frequentado. Como sempre, almocei muito bem por uma módica quantia e com o suplemento de dois comboios nesse espaço de tempo. Saí para o sol e subi uns 500 m até um ponto alto, onde existe um local na berma da estrada que me serve de poiso para estender a vista sobre o Douro, a ponte do Preguiça, onde passa o comboio sobre a foz da Ribeira de Murça e os barcos que cruzam o rio, quando é a época.


Satisfeitas as retinas, subi de volta a Freixo de Numão, parando um pouco antes da entrada da povoação para explorar uma pequena cascata que sabia ali existir.


Depois de testada a frescura da água, continuei, por Touça e Sebadelhe, virando à direita no cruzamento seguinte, com o objectivo de fazer uma visita à quinta do Vesúvio e seu apeadeiro. Passado o cruzamento para Numão, que tem um belo castelo, a estrada estreita-se e começa a descer numa sucessão de pronunciadas curvas. Como também não tem saída, destinando-se exclusivamente a servir as quintas e o apeadeiro, o trânsito é quase inexistente.

Quinta do Vesúvio
 Depois de mais um périplo por entre vinhas, agora adormecidas, cheguei ao rio Douro. À esquerda, o belo palácio da quinta do Vesúvio, mandado construir por D. Antónia Adelaide Ferreira e que pertence agora a ingleses, como tantas outras em todo o Douro.

Ali em baixo a temperatura era agradável. O silêncio era apenas cortado a tempos por alguma ave de passagem ou um ou outro tractor em trabalhos nas vinhas. Sentei-me a gozar daquela paz, da esplêndida vista e do afago do sol e por ali me deixei ficar até meia tarde. Ainda esperei que chegasse um comboio com destino ao Pocinho, mas como passada meia hora ainda não tinha aparecido, resolvi partir e ir espreitando na longa subida. Efectivamente, a meia encosta, vi-o chegar, ao longe...

Comboio chegando ao Vesúvio
A tarde declinava e a temperatura baixava rapidamente. Chegado ao cimo, ao cruzamento, segui em frente, pelo meio de mais vinhas, nesta época com muitos trabalhadores a podá-las, a caminho de Cedovim. Depois, Ranhados e algum tempo depois, Meda. Estava passado mais um dia. O frio intensificava-se e a previsão para o dia seguinte era de agravamento do estado do tempo, mas nada que me fizesse imaginar o que me esperava no dia seguinte...

terça-feira, 12 de março de 2013

AMENDOEIRAS 2013 - l

    Como é meu hábito de há muitos anos, tinha decidido fazer o circuito das amendoeiras em flor, por altura do Carnaval. Mas o mau tempo e uma irritante gripe, trocaram-me os planos. E como na semana seguinte, a chuva e vento forte persistiram, acabei por partir apenas no domingo, 24/2. Afinal o Inverno frio e chuvoso atrasaram um pouco a floração das amendoeiras e o final de Fevereiro adivinhava-se como o mais profícuo.
     O percurso para norte, evitando as auto-estradas, não deixa muitas alternativas. A-8 até Leiria, N-1 (IC-2), até Coimbra, IP-3, IC-6 até Tábua, N-17. Almoço em Gouveia. Celorico da Beira, Trancoso, Meda. A habitual simpatia à minha espera, parque deserto nesta altura do ano, só para mim.

      Como as previsões do tempo apontavam para 2 dias de sol, havia que aproveitá-los para ir ver as amendoeiras. Elas não florescem todas ao mesmo tempo, dependendo da zona, altitude, exposição ao sol, composição do solo, etc. Assim, fazendo um périplo pelos concelhos de V. N. de Foz Côa, F. Castelo Rodrigo, Freixo. E. à Cinta, Vila Flor, Alfândega da Fé, Torre de Moncorvo e Carrazeda de Ansiães, encontram-se as melhores áreas para regalar os olhos.

      Parti para V. N. de Foz Côa, onde aproveitei para ir ao Intermarché. Não sendo egoísta, abasteci-me a mim e à autocaravana. Segui pela N 222, que começa por descer até ao Côa, vendo-se no cimo de um monte a silhueta do novo museu do Côa, espreitando o Douro.


Passando um viaduto por cima do Côa, já perto da sua foz, começa-se a subir, agora paralelamente ao Douro. Ao fundo, vê-se a antiga estação de Côa, abandonada, junto ao pontão ferroviário que atravessava o rio mesmo no local onde desagua no Douro. Local de beleza agreste, onde se podem captar belas imagens.

Foz do Côa e antiga estação homónima
      Na aproximação a Castelo Melhor, começa o espectáculo das amendoeiras em flor. Sucedem-se os campos e as encostas cobertas por centenas de árvores no auge da floração. Com o céu azul e o sol a brilhar, o cenário é de antologia. Páro e fotografo sem cessar, à direita, à esquerda, a cada curva parece que o que vem é sempre mais bonito que o anterior. Não há máquina que consiga captar e reproduzir o que os olhos vêem. É preciso lá ir, e é isso que faço todos os anos.


O trecho entre Castelo Melhor e Almendra revela-se como o mais rico em amendoeiras cheias de flor. À entrada desta povoação os campos enormes cobertos de árvores de flores brancas e rosa faz jus ao seu nome. Pouco depois, entrava em Figueira de Castelo Rodrigo, onde depois de um curto passeio pela pequena vila, almocei.
    A partir daqui a estrada entra numa zona agreste, ladeada de enormes pedregulhos, mantendo-se assim até Escalhão. Começa a comprida descida para encontrar de novo o Douro, em Barca D'Alva. Mais um lindo troço de estrada, cheio de curvas, de encostas em que se misturam amendoeiras, oliveiras e vinha e em que se vê ao fundo o rio Águeda, que separa Portugal de Espanha, a antiga linha de caminho de ferro que prosseguia até La Fuente de San Esteban e daí para Salamanca e na linha de horizonte, as arribas do Douro, com o Penedo Durão, refúgio de águias e abutres.

Rio Águeda. Ao fundo, Barca D'Alva e o Douro

Paragem obrigatória no miradouro do Alto da Sapinha, já tantas vezes visitado. A vista que se alcança, nunca cansa...


Continuando a descida, vagarosamente porque a prudência e as vistas o aconselham, pouco depois entrava em Barca D'Alva, passando por baixo do pontão do caminho de ferro onde outrora apitavam os comboios a vapor sinalizando a aproximação ao termo da viagem em território português. Esta pequena aldeia, que vivia quase exclusivamente do caminho de ferro é agora habitada quase apenas por alguns idosos, embora a construção de um moderno cais onde atracam as embarcações que fazem os passeios fluviais no Douro, tenha trazido alguma animação.

Cais de Barca D'Alva
Há aqui um agradável caminho marginal ao Douro, que começa no cais e vai até à ponte internacional junto ao Águeda, que é um irrecusável convite. Aceite, lá fui. Volvidos uns 200 metros, já se consegue obter uma completa panorâmica sobre a totalidade da belíssima ponte almirante Sarmento Rodrigues, que liga o distrito da Guarda ao de Bragança.


O caminho ladeia o rio Douro, numa majestosa envolvente paisagística, atinge o ponto onde o Águeda encontra o Douro e inflecte para norte, passando a acompanhar o rio Águeda, passando por baixo da ponte internacional onde circulava o comboio.


 
Há depois uma escada de madeira que nos leva a um amplo espaço alcatroado e ao tabuleiro da ponte e linha do comboio.


Percorri o curto trajecto sobre a linha, que nos leva até ao que resta das instalações da outrora imponente estação de Barca D'Alva. É confrangedor olhar para tamanha destruição, para o que resta da grandiosa antiga estação terminal da linha do Douro. Autêntica metáfora do país, traz-me sempre alguma melancolia e frustração pelo estado desolador a que chegou o mais bonito troço da majestosa linha do Douro. Ninguém consegue progredir desperdiçando os melhores recursos que tem e nos quais tanto investiu.

Antiga estação de Barca D'Alva
Atravessando a ponte, entra-se no distrito de Bragança. A estrada acompanha o rio Douro, com quintas de um lado e outro, grandes laranjais junto à água e a omnipresente vinha nas encostas. Alguns quilómetros acima surge a barragem espanhola de Saucelle. Parei num dos miradouros para mais umas fotografias. Por cima e atrás fica o Penedo Durão, enorme penhasco sempre sobrevoado por águias reais, grifos e águias de Bonelli.



A tarde corria célere e havia que avançar. Viajar a uma média de 50 ou 60 Km/h a ritmo de caracol, com paragens muito frequentes e por vezes demoradas, fazem com que os dias passem vertiginosamente. Arranquei, para mais um troço onde há sempre grandes concentrações de amendoeiras floridas. Esta zona, até ao cruzamento para Poiares, é uma das mais bonitas para quem procura as amendoeiras.




Barragem de Saucelle
Paragem obrigatória em Freixo de Espada à Cinta para comprar azeite. Tornei-me também um apreciador dos nossos azeites. Aqui há um excelente, na adega cooperativa, o Montes Ermos. Se fosse hora de almoço, teria ido comer uma posta mirandesa bem confeccionada, no "A Cabana". Assim, feita a compra do azeite, prossegui, rumo a Torre de Moncorvo. Mais duas estações em ruínas, desta vez na linha do Sabor, F. E. à Cinta e Carviçais. Atravessar Carviçais de autocaravana é um suplício, não porque a estrada seja estreita, mas porque a povoação é muitíssimo comprida e o pavimento tem mais de uma dezena de lombas, que nos obrigam a quase parar. Passa-se a serra de Reboredo, Carvalhal, com os seus bairros de mineiros das encerradas minas de ferro e pouco depois, Moncorvo, que atravessei sem parar. Recordo que em muitas povoações não páro, a não ser que precise de algo, ou me apeteça passear. Os monumentos, há muitos anos que conheço todos e só de longe em longe volto a visitar algum mais apelativo. Continuei pela estrada velha, a N 220, que desce a serra até ao Pocinho, muito degradada e com tão pouco trânsito, que crescem ervas no meio do pavimento e as silvas já chegam quase ao meio da estrada. Mas quando são bonitas, são estas que eu prefiro. Paragem também obrigatória, junto à barragem do Pocinho. Mal tinha parado quando me vi rodeado de curiosos visitantes...


Dei um pulo até ao cais, recentemente remodelado, para ver um barco que ali está atracado, pertencente à CM de Foz Côa e que faz viagens turísticas no Douro, o Senhora da Veiga.


A tarde já declinava, emprestando diferentes tonalidades ao espelho de água da albufeira da barragem.

Barragem do Pocinho
Era tempo de partir. Optei, como sempre, por subir pela velha estrada até V. N. de Foz Côa, em detrimento do IP-2. Atravessei a cidade, engalanada para as festas da amendoeira em flor e prossegui pela N 102, por Longroiva, cujo castelo já na obscuridade, se recortava de forma romântica no céu ainda iluminado pelo final da tarde.


5 Km depois, chegava ao meu poiso habitual, base para as minhas surtidas na Beira Alta. Meda.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

MÉRIDA - ROMA AQUI TÃO PERTO

    Mérida é daqueles sítios que atiramos sempre para depois. Fica perto, de passagem, à beira da auto-estrada A-5 que nos leva para o interior de Espanha e dizemos: "qualquer dia temos que aqui vir com tempo"... Pelo menos comigo foi assim durante anos. Até que desta vez foi eleita para o fim de semana do 5 de Outubro.


      O tempo era o ideal para passear: céu limpo, temperatura amena, sem vento. Partimos cedo, por Abrantes, Alpalhão, Portalegre (almoço), Campo Maior, Elvas, Caia, sempre por estradas nacionais. Depois, contornámos Badajoz sem parar, pela A-5 e a meio da tarde chegávamos a Mérida. Em consulta ao "Google maps", tinha visto que, tendo como destino o camping de Mérida, a melhor saída seria a Nº 342, a partir da qual o acesso ao parque, localizado mesmo no centro da cidade, seria relativamente fácil. Assim fiz. Percorri o trajecto previamente gravado na cabeça, mas no local onde deveria estar o camping, havia apenas o hospital e um recinto desportivo, além de ruas movimentadas e gente, muita gente. Perguntei onde ficava o camping, mas ninguém sabia. Introduzi as coordenadas no GPS e parti, de novo. Levou-me precisamente ao mesmo local, junto do hospital! Outro espanhol mais idoso, indicou-me o único camping, a 3 quilómetros, atravessando toda a cidade, a caminho de Madrid. Lá fomos e a partir do centro começaram a aparecer placas indicativas. Efectivamente, 3 quilómetros depois ali estava ele. Questionada a menina da recepção, informou-nos que no google, o camping é o...Hospital! O parque pouco mais é que um recinto separado de uma quinta agrícola por uma rede de arame, por onde espreitam um burro, um rebanho de ovelhas e muitas galinhas. Apesar disso, já conhecemos pior em Espanha e a casa de banho era limpa e agradável, mas pagámos 17,94€ por noite!

Camping em Mérida

Os planos passavam por deixar a autocaravana no parque, mas o Google trocou-nos as voltas. No dia seguinte, sábado, partimos para a cidade. Tinham-nos dito que junto à praça de touros havia sempre estacionamento e com segurança. Embrenhámo-nos pelo centro da cidade, que não é muito grande, e encontrámos facilmente onde estacionar, em pleno centro, sem quaisquer restrições nem pagamentos. Começámos por nos dirigir ao posto de turismo, onde nos ofereceram vários panfletos e em português! De facto, ouvia-se muito a nossa língua pelas ruas, nos restaurantes, esplanadas, monumentos e viam-se muitas  matrículas portuguesas. Estaríamos todos a celebrar o 5 de Outubro ou a aproveitar as últimas surtidas antes do torniquete fiscal?
Plaza de Espanha





Percorremos ruas estreitas, cheias de gente, com o recheio das inúmeras lojas exposto no exterior, até que desembocámos na Plaza de Espanha, cheia de monumentos interessantes. Mais abaixo, uma das principais atracções: a ponte romana, uma das mais belas existentes na península ibérica.


Ponte romana sobre o Guadiana


O local é de uma extraordinária beleza. Não só a ponte, uma obra grandiosa para a época, mas toda o ambiente envolvente, com o rio Guadiana a ser aproveitado por inúmeros praticantes de canoagem, uma enorme zona verde e não muito longe, a moderna ponte de Lusitânia.






Ponte Lusitânia












Ponte romana com o Alcazaba Árabe




Como havia tanto para visitar, optámos por começar pelo mais importante, uma vez que o tempo não iria chegar para ver tudo. E em primeiro lugar queríamos ver o imponente teatro romano, verdadeiro ex-libris de Mérida!







Templo de Diana




De passagem, observámos o templo de Diana, com muitas semelhanças com o nosso de Évora e o Arco de Trajano, bem perto dali.








Anfiteatro romano
Quem vem a Mérida, deve optar por adquirir o bilhete que dá acesso ao conjunto dos principais 8 monumentos e que custa 12€ para um adulto. Entrámos para o conjunto composto pelo anfiteatro e o teatro romanos. O anfiteatro, é bem conhecido e tem lugar central em filmes que retratam a civilização romana, pois era onde se defrontavam os gladiadores e onde tinham lugar as lutas com as feras.





Hoje, lugar de presença constante de turistas que tudo fotografam e filmam, quanto sangue aqui se derramou, quanta crueldade aplaudida entusiasticamente pela populaça aqui se perpetrou?







No teatro romano


Ali mesmo ao lado, o ponto alto de todo o conjunto monumental: o imponente teatro romano. É de facto uma construção magnífica, cuja escavação se iniciou em 1910. Depois de parcialmente reconstruído, serve de palco ao festival de teatro clássico de Mérida desde 1933.






Por trás do teatro existe ainda um lindo espaço ajardinado rodeado de pórticos com colunas.

No exterior do recinto, os angariadores de clientes para os muitos restaurantes da zona, disputavam a atenção de cada visitante que saía, distribuindo folhetos com preços e ementas. De facto, com tanta caminhada, o estômago já reclamava e o corpo pedia algumas tréguas. Sentámo-nos logo ali mesmo, numa esplanada defronte do museu nacional de arte romano que iríamos visitar após o almoço. Umas migas extremenhas com chouriço, umas costeletas acompanhadas de um vinho tinto, tudo nem muito bom nem muito mau, mas aceitável por 10€ por cabeça, serviram para nos recompor para a tarde. Entrámos no museu em frente, gratuito aos sábados de tarde.

Museu de arte romano


Logo que chegamos ao átrio principal, ficamos impressionados com a grandeza do edifício, apenas igualada com a do seu espólio. Estátuas, enormes painéis de pequenos mosaicos, uns expostos em paredes, outros ocupando por completo o chão de salas, moedas, cerâmica, objectos descobertos nas escavações, enfim, para quem gosta de história, especialmente do estudo das civilizações clássicas, tem aqui material para um dia inteiro.


Terminada a visita ao museu, voltámos à ponte romana, para visitar o Alcazaba Árabe, que lhe fica contíguo. Como já disse, trata-se de um espaço muralhado, construído para controlar o acesso pela ponte e para refúgio dos muçulmanos nos primeiros tempos da conquista árabe, face às muitas revoltas da população cristã. A vista de cima das muralhas é fabulosa.



Ponte romana e ponte Lusitânia, vistas do Alcazaba Àrabe

 Seguindo junto à margem do Guadiana, não muito longe encontra-se a zona arqueológica da Moreria, extensa área de construções romanas, sobre as quais está construído um grande prédio de escritórios, numa perfeita simbiose, em que dos escritórios se avistam por baixo as vivendas romanas...
Zona arqueológica da Moreria




Já cansados e sedentos, sentámo-nos numa esplanada do centro, onde se falava predominantemente português. Os espanhóis que enchiam as ruas de manhã, tinham desaparecido, deixando-as desertas. Reconfortado com um "balde" de cerveja gelada e umas azeitonas, partimos para a basílica de Stª Eulália.



Subsolo da Basílica de Stª Eulália
A actual basílica foi construída sobre uma antiga necrópole cristã, onde se localizava o mausoléu da mártir Eulália. A partir de 1990, iniciaram-se obras na basílica que incluiram escavações no seu subsolo. Actualmente, o piso da igreja está suspenso sobre as escavações arqueológicas, que visitámos.

   A tarde declinava e o cansaço já se fazia sentir. Fomos ainda ao circo...

    O circo romano é outro dos locais que não se podem deixar de visitar. Enorme espaço, era um dos equipamentos obrigatórios nas principais metrópoles romanas.

Circo romano




Aqui se faziam as corridas de carros puxados por 2 (bigas) ou 4 (quadrigas) cavalos.











Aqueduto de S. Lázaro



Um dia é pouco para se visitar o património de Mérida. Apesar da cidade não ser muito grande e as extensões a percorrer não serem por isso exaustivas, ao fim de algumas horas a percorrer monumentos em passo curto e a ir de um extremo ao outro da cidade mais que uma vez, torna-se muito cansativo. Por isso, no regresso do circo, passado o aqueduto de S. Lázaro, a autocaravana que por ali estava, afigurou-se-nos mais acolhedora do que nunca. E já foi nela que procurámos o outro aqueduto, o de Los Milagros

Aqueduto de Los Milagros

Este aqueduto transportava a água desde a barragem de La Proserpina até Mérida.


Era tempo de recolher ao parque. Ficaram ainda vários monumentos por ver, para uma próxima incursão. A cidade é um autêntico manancial, uma enorme fonte para o estudo da civilização romana.

No dia seguinte, voltámos à A-5, pela entrada 333, afinal ali tão perto e o melhor acesso para o parque de campismo de Mérida. Como gosto de percorrer devagar os campos, ver a agricultura nos grandes espaços, que os espanhóis praticam, atravessar as localidades, entrei na Ex 209, por Montijo até Badajoz, inflectindo aí para norte, pela Ex 100 e Ex 110, para visitar Alburquerque. Esta pequena cidade tem um castelo lindo, que já visitei há uns anos. Desta vez porém não tive sorte, pois o seu interior está encerrado por motivo da construção de uma unidade hoteleira. Foi possível no entanto andar nas suas ameias e sobre as altas muralhas de onde se tem uma excelente panorâmica das vastas planícies extremenhas.

Castelo de Alburquerque
 Continuámos por Valência de Alcântara e entrámos por Marvão. Observado o desperdício de tantas instalações e belas moradias abandonadas na fronteira, passámos Castelo de Vide, Alpalhão, Abrantes, Santarém e a meio da tarde estávamos em casa. Foi um belo fim de semana, com um tempo óptimo para passear e pleno de lições de história. Uma viagem a repetir daqui a alguns anos, se não soçobrarmos no tsunami fiscal até lá...