terça-feira, 13 de agosto de 2013

BRETANHA 2013 - 4 (Surgères)

  17/7. Dia para percorrer cerca de metade do trajecto que nos separava da Bretanha. Esperámos um pouco para dar tempo a que o Intermarché de St. Jean-Pied-de-Port abrisse e partimos. Os campistas peregrinos há muito que tinham saído.

Camping St Jean-Pied-de-Port


Parámos no Intermarché, como já é habitual quando aqui passamos, para comprar produtos frescos, pão e abastecer de gasóleo, quando se justifica. Prosseguimos pela D 933, por Orthez, Mont-de-Marsan, D 932 por Roquefort e N 524 até Langon, D 672 por Sauveterre-de-Guyenne, D 670 Libourne, D 674 por Chalais, D 731 Barbezieux St Hilaire, Cognac. Esta zona é muito bonita, percorrendo dezenas de quilómetros por vinhedos lindos, muito bem tratados, a perder de vista. Almoçámos numa área de descanso em que havia umas árvores esparsas, pois o calor apertava. Esta opção por estradas departamentais, para evitar as grandes vias da zona de Bordéus, é compensadora em termos paisagísticos, mas revela-se cansativa em condução, pois atravessam-se imensas localidades e encontram-se muitos comboios agrícolas com máquinas enormes que formam imediatamente enormes filas de trânsito lento. Contudo, a sinalização é sempre boa, não só em relação às estradas e localidades, como também no que respeita a lojas e supermercados, indicando-nos todas com a devida antecedência. Prosseguimos pela D 731 por St Jean-d'Angely e finalmente pela D 939 até Surgères, local escolhido para passar esta noite. Chegámos ainda cedo e aqui não havia indicação para o camping, tendo nós que entrar na cidade, atravessá-la e então, numa outra saída, vimos uma placa com a indicação e lá chegámos ao parque de La Gères, nome emprestado pelo rio que lhe fica mesmo ao lado. O parque é agradável, com bons alvéolos, bastante arvoredo, piscina, internet e as casas de banho muito limpas, embora funcionem nuns pavilhões pré-fabricados que se tornam muito quentes no Verão. Donos muito simpáticos e prestáveis.

461 Km          Parque de La Gères  -  18,50 €

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

BRETANHA 2013 - 3 (St Jean-Pied-de-Port)

   A terça feira 16/7, foi passada a passear em St. Jean-Pied-de-Port. Como disse, a pequena cidade é linda, com o seu casco histórico medieval muito bem preservado, ruas muito estreitas, casas bonitas, tudo cheio de flores, muito comércio dedicado em grande parte aos peregrinos, muitos restaurantes, bares, "crèperies", imensa gente.













Há uma íngreme escadaria com umas largas dezenas de grandes degraus que conduzem à cidadela, de onde se avistam vastos e lindos panoramas sobre as imediações e sobre os Pirenéus e o vale de Roncesvalles. 








Percorremos as ruas estreitas, atravessámos as suas pontes.
























Entrámos na igreja, também muito bonita, com muitos vitrais, à semelhança de todas as outras na região e fora dela.











A cada passo, tudo nos fazia lembrar que nos encontrávamos num ponto nevrálgico do caminho francês para Santiago.









O tempo continuava quente e abafado. Entretanto, a fome já se anunciava e nada melhor que um almocinho numa daquelas esplanadas floridas debruçadas sobre o rio Nive. A comida era banal, mas a paisagem valeu o preço. Regressámos ao parque para descansar e pouco depois começou a chover e a trovejar. Com o tempo um pouco mais fresco, deambulámos ainda pelas margens do rio, com belas moradias e quintais cheios de arvoredo.


Camping de St. Jean-Pied-de-Port


À noite voltámos a querer absorver aquele encanto e mistério, diferente do que se desprende durante o dia. Deitámo-nos cedo, prática habitual em França e porque no dia seguinte era dia de partir bem cedo e fazer muitos quilómetros debaixo de calor...

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

BRETANHA 2013 - 2 (St Jean-Pied-de-Port)

    Partimos no dia 14/7, domingo, bem cedo. O objectivo para este dia era Salamanca, melhor dizendo, o nó 225 da A-62, em Pedrosillo. Logo à saída da auto-estrada, à esquerda, mesmo em frente das bombas da Cepsa, fica o Camping Olímpia, um hostal, com 14 lugares para autocaravanas, chão com relva, boas instalações sanitárias, bar e restaurante. O local ideal para quem está de passagem, como nós. No dia seguinte é só entrar na autovia e prosseguir.
    Apanhámos a A-15, como habitualmente, a A-1 em Santarém e a A-23 em Torres Novas. Para grandes jornadas não há alternativas às auto-estradas. A A-23 é caríssima. Paragem na área de serviço de Abrantes para um chi-chi e saída no nó de Castelo Novo, para almoçar em Alpedrinha e procurar os restos de cerejas do Fundão. Milagrosamente ainda havia um vendedor que nos arranjou 2 Kg, bem maduras. Voltámos a entrar no nó do Fundão, onde começaram a aparecer umas nuvens escuras a ameaçar trovoada. Viam-se imensos carros de matrícula espanhola, na A-23, mas sobretudo na A-25, a partir da Guarda. Presumo que já descobriram que não pagando, ninguém os obriga a pagar... Efectivamente, assim que passámos Fuentes de Onoro, começou a chover torrencialmente e a trovejar. Parámos numa área de descanso para ver se descarregava, mas logo que retomámos a estrada, a trovoada recrudesceu, caindo um intenso granizo até já depois de Salamanca. Noite tranquila. 510 Km; parque - 16,50€

        Dia 15/7, saída pouco depois do nascer do sol. O tempo estava fresco. Assim que entrámos na A-62, vimo-nos no meio da avalanche de pesados. Valladolid, Palência, Burgos. Aqui, optámos por abandonar a auto-estrada que passa a ser paga e tomámos a N-120 para Logrono. Tanto em Burgos como em Logrono, é preciso entrar nos subúrbios da cidade, mas a sinalização é muito boa e torna-se fácil seguir para onde queremos. Ainda antes de Logrono, em Najera, começa a A-12, que prossegue rumo a Pamplona. Precisávamos de um local para almoçar e ele não aparecia. O sol bem quente já castigava. Tivémos que sair, no nó 31 e descobrimos um local muito sossegado, com árvores, junto ao monastério de S. José, perto de Alloz. Ainda vimos as nossas irmãs e o abade. Prosseguimos para Pamplona. Aqui chegados, queríamos seguir pela N 135 a caminho de Roncesvalles e Valcarlos. A PA 30, circunda a cidade e vai distribuindo o trânsito para as várias saídas. Nós bem procurámos, mas da N-135 nem rasto. Voltas e mais voltas, fomos parar dentro da cidade, valendo-nos que o S. Fermin tinha acabado na véspera, não fosse aparecer algum touro desembestado... Todas as indicações que nos pareciam a correcta, indicavam "Francia". Mas pouco depois verificávamos que estávamos na A-15. Ora existem 3 estradas para França: a A-15, que é de facto a principal, mas também a N 121 A e a N 135, que bordeja o caminho francês para Santiago. Voltámos para trás mais uma vez. Estava a ver o tempo a passar e decidi pôr os 2 GPS que nunca uso, a trabalhar. Um, passou o tempo a adquirir satélites e o outro ensandeceu, ficando doidão de todo. Acabei por parar num posto de combustível e pedir ajuda. O rapaz quando ouviu falar em Roncesvalles e S. Jean-Pied-de-Port, coçou a cabeça, rodou o boné, pensou e por fim pôs-se a desenhar aquilo que me parecia uma pulseira de missangas. Afinal eram rotundas, segundo explicou... Lá fomos, contámos as rotundas, seguimos as indicações, mas no final fomos parar a um sítio onde já tinha estado. Já disposto a sair por qualquer lado e depois apanhar uma estrada secundária que me levasse à N 135, casualmente apareceu numa rotunda a indicação para França pela N-135! Afinal não é só em Portugal que há falhas destas na sinalização. Lá fomos pela estrada que é muito bonita, com muito arvoredo, mas muitas curvas também. Encontravam-se muitos peregrinos pelo caminho que frequentemente passa mesmo ao lado da estrada, com pesadas mochilas às costas, cajado na mão e vieira pendurada. Último abastecimento em Espanha numas bombas que já conhecemos bem, antes de Auritz e logo a seguir, Roncesvalles, onde muitos peregrinos iniciam o caminho para Santiago.

Albergue de peregrinos-Roncesvalles




Parámos, para ver a igreja e o albergue.







Igreja - Roncesvalles




A igreja é muito bonita, com belos vitrais e tem umas catacumbas bem curiosas.




















Logo a seguir a Roncesvalles, há um miradouro com uma capela, no fim de uma enorme subida. Paramos sempre aqui, para sentir o vendaval que invariavelmente se apresenta e a bela vista sobre os Pirenéus.



A partir daqui a estrada desce com grande inclinação e com curvas apertadíssimas, por alguns quilómetros até Valcarlos, última localidade espanhola. Aqui nestes desfiladeiros, a rectaguarda do exército de Carlos Magno sofreu uma emboscada dos bascos que lhe provocaram pesadas baixas. Entramos em França e pouco depois chegamos ao nosso destino do dia, St Jean-Pied-de-Port, cidadezinha deliciosa, linda, com um casario medieval, flores por todo o lado, restaurantes e esplanadas sempre cheios, muralhas e fortificações bem cuidadas e um dos pontos bem conhecidos do caminho francês para Santiago, onde os peregrinos se preparam para a travessia dos Pirenéus.

St Jean-Pied-de-Port
O parque de campismo municipal, estava quase cheio. Fazia um calor abafado, mesmo já perto da hora de jantar. O parque não é muito grande e as casas de banho não são grande coisa. Internet, só no posto de turismo. Continuou a chegar gente até à noite, muitos peregrinos, a pé ou de bicicleta, que chegavam, tomavam banho, cozinhavam qualquer coisa e deitavam-se. Nós jantámos e fomos passear à cidade, que de noite é linda.





Muita gente a passear, aproveitando o fresco da noite e as belas vistas proporcionadas pela iluminação bem posicionada.







536 Km     Parque  27€ (2 noites)

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

BRETANHA 2013 - 1

    O destino escolhido para as férias de Verão deste ano, foi a Bretanha. Há vários anos que estava em lista de espera e agora coube-lhe a vez. É uma província que sempre vi como uma terra rebelde, muito ciosa da sua cultura, costumes, língua, que só foi integrada na França já muito tarde, e que fez a vida negra às legiões romanas. Com uma vasta linha costeira, recortada por portos, cabos e pontas, com as maiores marés da Europa, que culminam no Monte St Michel, já na fronteira com a Normandia e que chegam a ter 14 metros de amplitude entre a baixa mar e a preia mar.
     Separam-nos cerca de 2000 Km, o que representam vários dias para ir e vir e umas centenas de euros em gasóleo. E actualmente já não tenho paciência para fazer jornadas de 1000 Km como há uns anos atrás. Passeio para me divertir, não para me estafar. Tento não fazer mais que 500 Km diários, especialmente com tempo muito quente. Preparei cuidadosamente, como é hábito, um itinerário para 20 dias, com uma paragem de um dia à ida, em S. Jean-Pied-de-Port, nos Pirenéus franceses e com outra paragem de um dia no regresso, em Chinon, no Vale do Loire. Ambas as paragens se destinavam a quebrar o longo percurso, mas aproveitando esses interregnos para visitar as cidades, bem merecedoras de tal distinção. De resto, o objectivo eram mesmo as costas bretãs, com uns dias de estadia na costa sul do Cap Sizun, em Kersigny Plage, como base de apoio para explorar a zona e outros dias na costa Norte, em St Briac-sur-Mer, já perto de St Malo. O itinerário foi cumprido escrupulosamente e asseguro-vos que valeu a pena!
Pointe du Van

sexta-feira, 12 de julho de 2013

PRIMAVERA NO GERÊS - 7

     Chegara o dia do regresso. Estava indeciso sobre fazer todo o percurso num só dia, ou reparti-lo em dois. Se optasse por servir-me de auto-estradas é claro que se faria cómoda e rapidamente. Saí por Covide, Rio Caldo, subi pela pousada de S. Bento até à N 103 e virei logo a seguir para Vieira do Minho. Parei a seguir junto da barragem de Guilhofrei, que tem uma boa área de lazer. Dentro de Fafe, a sinalização à portuguesa manifestou-se, desaparecendo a antiga e vendo-se apenas a nova, que nos empurra para as auto-estradas e as portagens. Como o dia ia quase a meio e ainda estava no Minho, decidi entrar na A-7 até Famalicão e depois A-3 até ao Porto. Aí, atravessei o Douro pela ponte da Arrábida e depois, nos Carvalhos, fui apanhar o IC-2 (eu continuo a chamar-lhe N- 1), que já não larguei até Leiria, como é meu hábito.

      Foram uns dias óptimos, em que tudo correu bem, mesmo nos dias em que o clima esteve menos colaborante, mas eu consigo extrair sempre o que há de bom. Gosto do sol, da temperatura amena, do céu azul, mas também gosto de chuva, de vento, de frio. Matei as saudades que tinha desta zona do Alto Minho, onde já não ia há mais de um ano. Mas também é agradável regressar, para junto da família, dos gatos, do meu mundo. E preparar já a próxima saída...

quinta-feira, 11 de julho de 2013

PRIMAVERA NO GERÊS - 6

    Domingo era o dia que tinha destinado para ir até Vilarinho das Furnas. Saí cedo, levei a autocaravana até à barragem, onde a deixei encostada ao paredão. Mochila às costas, máquina fotográfica a tiracolo e cajado na mão, lá parti. O caminho de acesso à antiga aldeia começa na barragem, onde existe uma cancela fechada, cuja chave possuem alguns antigos habitantes que têm colmeias e outras pequenas explorações junto da aldeia. O caminho é sempre junto à margem da albufeira, numa paisagem muito bonita e silenciosa.

Barragem de Vilarinho das Furnas
    Passado talvez um quilómetro começa a ouvir-se o sussurrar longínquo de água a correr, ruído que se vai avolumando à medida que progrido no terreno. Já sabia da existência de uma bela queda de água, pois sou um velho visitante destas paragens, mas para se ouvir àquela distância tinha que estar bem nutrida! De facto, quando fiz a última curva antes de lá chegar, deparou-se-me uma visão espectacular, com a cascata enorme, com uma força que é raro presenciar. Como estamos no princípio do Verão e o Inverno foi muito chuvoso, aí está o belo resultado!

Pouco depois comecei a ouvir vozes. Ia um grupo um pouco à minha frente, com a aparência de reformados em dia de passeio. Passei para a frente e continuei. A paisagem e o ambiente envolvente são arrebatadores. Só se ouvem as aves, os regatos muito frequentes e um ou outro peixe que salta na água.


Habitualmente, há um carreiro que passa junto à água e vai até à aldeia, mas agora como a barragem estava quase na cota máxima, o carreiro estava interrompido pela água. Tive que subir por umas grandes rochas, com algum perigo, pois tem que se trepar com a ajuda de pés e mãos o que se complica se houver bagagem. Por fim lá passei para o outro lado. Há ainda pequenos soutos, carvalhais e bosques de outras espécies, restos da existência de explorações agrícolas. Começo a ver muros de pedra solta, que delimitavam propriedades.

Praia em Vilarinho das Furnas...




Mais umas escaladas por outros rochedos e finalmente estou no local onde ficava a parte alta da aldeia.







Perscrutando as águas adivinhando a aldeia submersa...
Comecei a interessar-me por esta aldeia ao ler a obra de Jorge Dias, grande etnólogo, que obteve o primeiro doutoramento em etnologia em Portugal, aos 60 anos, com o trabalho sobre Vilarinho da Furna, nome correcto da aldeia e para o qual viveu algum tempo no meio dos camponeses, participando nos seus trabalhos, nas suas festas, no seu ambiente comunitário de que esta aldeia foi o expoente máximo em Portugal. Junto com Rio de Onor, perto de Bragança, foram as duas aldeias mais representativas da vida comunitária, apenas permitida pelo completo isolamento e necessidade de sobrevivência só garantida pela partilha de trabalhos, tarefas, justiça e posse da maioria dos bens da aldeia. Por isso me sinto bem ali, furando as silvas e o mato que agora cobre o que outrora eram lameiros e quintais que alimentavam famílias, saltando por cima das pedras e das ruínas onde existiram casas que abrigavam pessoas que ali viveram, amaram, morreram e onde pastavam vacas, cabras e ovelhas, debicavam galinhas e patos, onde chafurdavam porcos procurando bolotas caídas de carvalhos. Tudo desapareceu em 1973, submerso nas águas de uma barragem que é apenas reservatório de água para engrossar o fluxo da Caniçada, lá bem mais abaixo.
Antigo lameiro





Sentei-me no meio de um ribeiro de águas límpidas que saltitam no meio das pedras redondas e pus-me a devorar o meu lanche.






Momento do repasto




Ouvi então o ruído de um animal, fui espreitar e vi um cavalo a olhar para mim, surpreendido. Estava em muito mau estado, aparentando estar doente e deve ter sido deixado ali por algum dos antigos habitantes. Pasto e água não lhe faltavam...




Habitante inesperado em Vilarinho da Furna





Ainda descobri um antigo moinho comunitário, depois de atravessar moitas de silvas e mato cerrado.






Antigo moinho de água


A aldeia propriamente dita, está toda submersa. Só em anos muito secos, no final do Verão, aparecem algumas das antigas casas, em ruínas e consegue-se andar no meio dos antigos caminhos estreitos, enlameados, vendo-se ainda a ponte sobre o ribeiro. Liberta-se então uma enorme nostalgia que tudo envolve e enche de melancolia e tristeza os espíritos dos amantes da ancestralidade da terra portuguesa, da simplicidade das coisas, de todo um modo de viver, duro mas feliz, que, simbolicamente, aqui jaz sepultado sob as águas. Imagine-se o que sentem então os que ainda aqui nasceram e viveram...

Local onde está submersa a aldeia

Com este sentimento que sempre me invade quando aqui venho, iniciei o caminho de regresso. Novas acrobacias sobre as rochas. Desta vez cruzei-me com mais grupos, lembrando-me que era domingo. O tempo entretanto aquecera. Cheguei à cascata, para mais umas fotos e deliciar-me com aquela visão.


Pouco depois cheguei à barragem. Ainda uma surpresa. O local estava completamente cheio de motos e gente devidamente "fardada" a preceito. Eram centenas, por todo o lado, muitos dos quais tinham até descido à base do paredão ao local onde sai um jacto de água.



Como eram horas de almoço, já suspeitava onde iria toda aquela gente almoçar, num local com relativamente poucas opções. A autocaravana nem se via, rodeada de motos por todo o lado. Tinha mesmo que esperar que toda aquela confusão dispersasse, o que ainda demorou uma meia hora. Por fim, arranquei também e quando cheguei à Cerdeira, é claro que estava transformada num parque motard... Mas só o restaurante estava ocupado e acabei por ter o almejado sossego garantido pela grande extensão do parque de campismo. E por ali fiquei durante a tarde, gozando a óptima temperatura, o sol filtrado pelo arvoredo, vendo a tarde declinar naquele "dolce fare nienti"...

terça-feira, 9 de julho de 2013

PRIMAVERA NO GERÊS - 5

   Este dia estava reservado para um passeio ao topo de Portugal. Saí cedo, por Terras de Bouro percorrendo estreitas e sinuosas estradas municipais até Vila Verde. Aqui fiz uma breve paragem para ir ao supermercado. Apanhei a N 101, uma estrada muito bonita que rasga o coração do alto Minho, atravessando vetustas povoações e subindo e descendo serras, sempre no meio do omnipresente verde. Mesmo à chegada a Ponte da Barca, na recta que lhe dá acesso, um Skoda escondido atrás de uma moita de silvas, apenas com um radar a espreitar por cima das ditas, zelava pela segurança dos automobilistas incautos e prevenindo o excesso de peso nas suas carteiras... Fico sempre comovido com estas acções de benemerência da GNR e tanto cuidado com a segurança das populações...

Fonte a jorrar pureza há 133 anos, perto de Arcos de Valdevez

Nesta estrada ainda se conseguem encontrar muitas fontes onde brota água pura e em abundância. Apesar de alguns riscos de contaminação que actualmente existem, não resisto a fazer o mesmo que sempre fiz: parar, beber, sentir o prazer inigualável do sabor da água pura, fresca, inteira, que me deixa plenamente satisfeito, pelo menos até à fonte seguinte... Logo a seguir, Arcos de Valdevez. Gosto muito desta vila, bem representativa da riqueza arquitectónica, paisagística, etnográfica e antropológica do Alto Minho. Fiz o desvio para o centro. Percorri a avenida principal, à beira do rio. Os parques de estacionamento estavam repletos de uma ponta à outra da vila. Assim, dei meia volta à rotunda e voltei à estrada. O dia estava maravilhoso, com sol e uma temperatura ideal para passear. Um pouco antes de chegar a Monção, aparece à esquerda o palácio da Brejoeira, ícone do famoso vinho Alvarinho. Obrigatório parar para apreciar a beleza arquitectónica do palácio e dos seus jardins.

Palácio da Brejoeira - Monção
Contorno Monção por fora e prossigo agora junto ao rio Minho, pela N 202, até Melgaço. Recordo que só entro nas vilas e cidades quando me apetece "beber" um pouco do seu ambiente, ou quando preciso de me abastecer. Já as visitei todas muitas vezes e portanto dou prioridade às paisagens e aos locais menos frequentados. Mas tanto Monção como Melgaço merecem uma visita, aos seus centros históricos muito interessantes e aos seus castelos. Virei à direita, começando a subir as faldas da serra da Peneda. A paisagem começa a tornar-se mais agreste à medida que subimos. Passo Cubalhão e pouco depois chego ao cruzamento de Lamas de Mouro, uma das principais portas para o parque nacional. Este local é paradisíaco. Tem um enorme parque de merendas debaixo de um verdadeiro bosque e onde correm diversos regatos de água pura. O parque de campismo de Lamas de Mouro fica mesmo ao lado. Nestes dias há um sossego absoluto, pois não se encontra ali ninguém. Para a direita, segue uma estrada que dá acesso a diversas "brandas" e "inverneiras", tipo de povoamento característico das serras de Soajo e Peneda. As brandas são os aglomerados onde as populações passam a maior parte do ano, com os seus gados e pastos; as inverneiras ficam nos vales e é onde se recolhem no Outono para passar os Invernos, que aqui são bem rigorosos.


Eram horas de almoço e aqui chegado, detectei um cheirinho no ar que me atraía a um local já meu conhecido: o restaurante Vidoeiro, ali mesmo ao lado. Trata-se de um estabelecimento sem pretensões, mas com uma comida com um sabor autêntico, as carnes que levam apenas uma pitada de sal e sabem divinalmente, bem como todos os vegetais que habitualmente as acompanham. Apareceu-me uma enorme travessa cheia de um churrasco de variadas carnes. O vinho, fazia jus à comida. No final, a travessa ficou vazia e o estômago cheio. Tudo aquilo por 7€! Mais pesado, retomei a estrada por baixo do bosque, a caminho do santuário da Srª da Peneda.

Senhora da Peneda

A estrada está agora muito degradada, com grandes pedaços destruídos, com buracos enormes e sem alcatrão.
O santuário passa por grandes obras de recuperação dos albergues de peregrinos e edifícios adjacentes. Desci até à enorme cascata que cai ao lado da igreja, nesta altura com imensa água.






Havia pouca gente, uma das vantagens de sair durante a semana. Há ali um bom hotel, com a curiosidade de as águas da cascata lhe passarem por baixo através de um túnel.

Feita a visita, regressei pelo mesmo caminho até à porta de Lamas de Mouro e depois virei à direita para Castro Laboreiro. Esta é uma das mais típicas povoações portuguesas. Vila erigida em altitude, tem invernos muito rigorosos. É hoje muito procurada pelos turistas que vêm em busca da sua afamada gastronomia serrana, dos seus costumes, do artesanato e dos cães de raça autóctone, o Castro Laboreiro.

 

Há aqui um excelente hotel, o "Castrum Villae", bem como uma albergaria e uma estalagem, e ainda várias casas de turismo rural. Não falta onde pernoitar. Os espanhóis invadem esta vila aos fins de semana. Neste dia apenas se avistava um casal estrangeiro. Os residentes viam-se pouco, uns a trabalhar nos campos, outros em casa. Andei pela vila, atravessei umas pontes e uns rochedos e depois voltei à estrada, a caminho de Espanha.


Ponte sobre o rio Castro Laboreiro


Esta estradinha que liga Castro Laboreiro à fronteira de Ameijoeira, é de uma beleza selvagem. Logo à saída divisamos à direita uma colina rochosa em cuja coroa está edificado o castelo de Castro Laboreiro. No entanto este só se consegue ver depois de aturado esforço, ou com o auxílio de binóculos, de tal forma se integra e se confunde com as rochas. É de muito difícil acesso, a partir do centro da vila, ao cabo de muito se trepar por um carreiro íngreme e de pedras soltas. Teve papel preponderante na Reconquista cristã da península, pertenceu aos muçulmanos, foi conquistado por D. Afonso Henriques, foi atacado no reinado de D. Afonso III e de D. João I...
Castelo de Castro Laboreiro, confundindo-se com a rocha na coroa da montanha
O curto percurso até à fronteira é composto por montanhas rochosas, onde ao longe se divisam pequenos lugarejos cravados no dorso dos montes, agora habitados por 2 ou 3 pessoas. Chego a Ameijoeira, mais uma delas onde não se vê vivalma e entro em território espanhol, igual ao português. Também aqui as escassas povoações estão desertas, ou vêem-se apenas velhos, muito velhos, em cadeiras de rodas ou arrastarem-se penosamente. Passo Entrimo, viro à direita e pouco depois avisto as águas da albufeira do Alto Lindoso, cujo lago fica em grande parte em território espanhol.
Barragen do Alto Lindoso, perto de Aceredo - Espanha

Reentro em Portugal pelo Lindoso, linda aldeia onde se destacam o seu lindo castelo e o maior conjunto de espigueiros do país.

Castelo de Lindoso


Fui fazer nova visita ao castelo, de onde se avista uma paisagem soberba sobre as águas da albufeira.









Vista do cimo da castelo de Lindoso
Maqueta do castelo de Lindoso, no seu interior



O castelo tem um pequeno museu no seu interior, mas o que chama mais a atenção é a vista que dele se obtém, quer para a barragem, quer para o conjunto de espigueiros mesmo ali ao lado.






Espigueiros - Lindoso




Acabada a visita ao castelo, embrenhei-me no meio dos espigueiros. Alguns ainda cumprem a sua original função, pois estão cheios de espigas de milho.









A tarde avançava e eram horas de partir. Prossegui até Entre-Ambos-os-Rios, localidade com um nome curioso pelo facto de aqui se juntar o rio Tamente ao rio Lima. Logo a seguir aparece a barragem de Touvedo, que forma um belo lago com um parque de campismo mesmo em cima.




Barragem de Touvedo


Pouco depois chegava a Ponte da Barca. O restante percurso de regresso foi igual ao da manhã, até Vila Verde, Terras de Bouro, Covide, Cerdeira. Estava cumprida mais  uma jornada.