Este dia estava reservado para um passeio ao topo de Portugal. Saí cedo, por Terras de Bouro percorrendo estreitas e sinuosas estradas municipais até Vila Verde. Aqui fiz uma breve paragem para ir ao supermercado. Apanhei a N 101, uma estrada muito bonita que rasga o coração do alto Minho, atravessando vetustas povoações e subindo e descendo serras, sempre no meio do omnipresente verde. Mesmo à chegada a Ponte da Barca, na recta que lhe dá acesso, um Skoda escondido atrás de uma moita de silvas, apenas com um radar a espreitar por cima das ditas, zelava pela segurança dos automobilistas incautos e prevenindo o excesso de peso nas suas carteiras... Fico sempre comovido com estas acções de benemerência da GNR e tanto cuidado com a segurança das populações...
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| Fonte a jorrar pureza há 133 anos, perto de Arcos de Valdevez |
Nesta estrada ainda se conseguem encontrar muitas fontes onde brota água pura e em abundância. Apesar de alguns riscos de contaminação que actualmente existem, não resisto a fazer o mesmo que sempre fiz: parar, beber, sentir o prazer inigualável do sabor da água pura, fresca, inteira, que me deixa plenamente satisfeito, pelo menos até à fonte seguinte... Logo a seguir, Arcos de Valdevez. Gosto muito desta vila, bem representativa da riqueza arquitectónica, paisagística, etnográfica e antropológica do Alto Minho. Fiz o desvio para o centro. Percorri a avenida principal, à beira do rio. Os parques de estacionamento estavam repletos de uma ponta à outra da vila. Assim, dei meia volta à rotunda e voltei à estrada. O dia estava maravilhoso, com sol e uma temperatura ideal para passear. Um pouco antes de chegar a Monção, aparece à esquerda o palácio da Brejoeira, ícone do famoso vinho Alvarinho. Obrigatório parar para apreciar a beleza arquitectónica do palácio e dos seus jardins.
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| Palácio da Brejoeira - Monção |
Contorno Monção por fora e prossigo agora junto ao rio Minho, pela N 202, até Melgaço. Recordo que só entro nas vilas e cidades quando me apetece "beber" um pouco do seu ambiente, ou quando preciso de me abastecer. Já as visitei todas muitas vezes e portanto dou prioridade às paisagens e aos locais menos frequentados. Mas tanto Monção como Melgaço merecem uma visita, aos seus centros históricos muito interessantes e aos seus castelos. Virei à direita, começando a subir as faldas da serra da Peneda. A paisagem começa a tornar-se mais agreste à medida que subimos. Passo Cubalhão e pouco depois chego ao cruzamento de Lamas de Mouro, uma das principais portas para o parque nacional. Este local é paradisíaco. Tem um enorme parque de merendas debaixo de um verdadeiro bosque e onde correm diversos regatos de água pura. O parque de campismo de Lamas de Mouro fica mesmo ao lado. Nestes dias há um sossego absoluto, pois não se encontra ali ninguém. Para a direita, segue uma estrada que dá acesso a diversas "brandas" e "inverneiras", tipo de povoamento característico das serras de Soajo e Peneda. As brandas são os aglomerados onde as populações passam a maior parte do ano, com os seus gados e pastos; as inverneiras ficam nos vales e é onde se recolhem no Outono para passar os Invernos, que aqui são bem rigorosos.

Eram horas de almoço e aqui chegado, detectei um cheirinho no ar que me atraía a um local já meu conhecido: o restaurante Vidoeiro, ali mesmo ao lado. Trata-se de um estabelecimento sem pretensões, mas com uma comida com um sabor autêntico, as carnes que levam apenas uma pitada de sal e sabem divinalmente, bem como todos os vegetais que habitualmente as acompanham. Apareceu-me uma enorme travessa cheia de um churrasco de variadas carnes. O vinho, fazia jus à comida. No final, a travessa ficou vazia e o estômago cheio. Tudo aquilo por 7€! Mais pesado, retomei a estrada por baixo do bosque, a caminho do santuário da Srª da Peneda.
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| Senhora da Peneda |
A estrada está agora muito degradada, com grandes pedaços destruídos, com buracos enormes e sem alcatrão.
O santuário passa por grandes obras de recuperação dos albergues de peregrinos e edifícios adjacentes. Desci até à enorme cascata que cai ao lado da igreja, nesta altura com imensa água.
Havia pouca gente, uma das vantagens de sair durante a semana. Há ali um bom hotel, com a curiosidade de as águas da cascata lhe passarem por baixo através de um túnel.
Feita a visita, regressei pelo mesmo caminho até à porta de Lamas de Mouro e depois virei à direita para Castro Laboreiro. Esta é uma das mais típicas povoações portuguesas. Vila erigida em altitude, tem invernos muito rigorosos. É hoje muito procurada pelos turistas que vêm em busca da sua afamada gastronomia serrana, dos seus costumes, do artesanato e dos cães de raça autóctone, o Castro Laboreiro.
Há aqui um excelente hotel, o "Castrum Villae", bem como uma albergaria e uma estalagem, e ainda várias casas de turismo rural. Não falta onde pernoitar. Os espanhóis invadem esta vila aos fins de semana. Neste dia apenas se avistava um casal estrangeiro. Os residentes viam-se pouco, uns a trabalhar nos campos, outros em casa. Andei pela vila, atravessei umas pontes e uns rochedos e depois voltei à estrada, a caminho de Espanha.
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| Ponte sobre o rio Castro Laboreiro |
Esta estradinha que liga Castro Laboreiro à fronteira de Ameijoeira, é de uma beleza selvagem. Logo à saída divisamos à direita uma colina rochosa em cuja coroa está edificado o castelo de Castro Laboreiro. No entanto este só se consegue ver depois de aturado esforço, ou com o auxílio de binóculos, de tal forma se integra e se confunde com as rochas. É de muito difícil acesso, a partir do centro da vila, ao cabo de muito se trepar por um carreiro íngreme e de pedras soltas. Teve papel preponderante na Reconquista cristã da península, pertenceu aos muçulmanos, foi conquistado por D. Afonso Henriques, foi atacado no reinado de D. Afonso III e de D. João I...
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| Castelo de Castro Laboreiro, confundindo-se com a rocha na coroa da montanha |
O curto percurso até à fronteira é composto por montanhas rochosas, onde ao longe se divisam pequenos lugarejos cravados no dorso dos montes, agora habitados por 2 ou 3 pessoas. Chego a Ameijoeira, mais uma delas onde não se vê vivalma e entro em território espanhol, igual ao português. Também aqui as escassas povoações estão desertas, ou vêem-se apenas velhos, muito velhos, em cadeiras de rodas ou arrastarem-se penosamente. Passo Entrimo, viro à direita e pouco depois avisto as águas da albufeira do Alto Lindoso, cujo lago fica em grande parte em território espanhol.
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| Barragen do Alto Lindoso, perto de Aceredo - Espanha |
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Reentro em Portugal pelo Lindoso, linda aldeia onde se destacam o seu lindo castelo e o maior conjunto de espigueiros do país.
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| Castelo de Lindoso |
Fui fazer nova visita ao castelo, de onde se avista uma paisagem soberba sobre as águas da albufeira.
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| Vista do cimo da castelo de Lindoso |
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| Maqueta do castelo de Lindoso, no seu interior |
O castelo tem um pequeno museu no seu interior, mas o que chama mais a atenção é a vista que dele se obtém, quer para a barragem, quer para o conjunto de espigueiros mesmo ali ao lado.
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| Espigueiros - Lindoso |
Acabada a visita ao castelo, embrenhei-me no meio dos espigueiros. Alguns ainda cumprem a sua original função, pois estão cheios de espigas de milho.
A tarde avançava e eram horas de partir. Prossegui até Entre-Ambos-os-Rios, localidade com um nome curioso pelo facto de aqui se juntar o rio Tamente ao rio Lima. Logo a seguir aparece a barragem de Touvedo, que forma um belo lago com um parque de campismo mesmo em cima.
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| Barragem de Touvedo |
Pouco depois chegava a Ponte da Barca. O restante percurso de regresso foi igual ao da manhã, até Vila Verde, Terras de Bouro, Covide, Cerdeira. Estava cumprida mais uma jornada.