segunda-feira, 8 de julho de 2013

PRIMAVERA NO GERÊS - 4

O parque de campismo de Cerdeira é um dos melhores do país. Para quem gosta de campismo desportivo, de tranquilidade, de proximidade com a Natureza, de ar puro, ou da mistura de um pouco de tudo isto, este é o parque ideal. Quando eu comecei a explorar estes sítios, há algumas décadas, não havia parques de campismo e era proibido acampar no Parque Nacional. Havia um local apenas, junto da barragem de Vilarinho das Furnas, onde era permitido montar tendas. Recordo-me com saudade dos banhos tomados naquelas águas, que eram os únicos possíveis então. Depois abriu o parque do Vidoeiro, junto às termas, mas que nunca me agradou, pela exiguidade do espaço, pela extrema dificuldade de manobrar um carro lá dentro ou de montar uma simples tenda num autêntico exercício de equilibrismo. Uns anos mais tarde abriu então o parque da Cerdeira, e esse sim, logo de início mostrou estar à altura da região onde está implantado. Está totalmente coberto por um frondoso arvoredo, é muito grande, tem 3 bons blocos sanitários, piscina, área de desportos radicais, minimercado, um bom restaurante, vários bungalows e apartamentos, cobertura wifi de internet, enfim, consegue aliar a fruição plena da natureza com o conforto de certas modernidades e mordomias.
   Este dia era dedicado à geira romana. Como a manhã estava ainda muito cinzenta e de vez em quando caía uma chuvinha miúda, decidi ficar por ali a vaguear pelo parque e esperar pela tarde. Almocei e de facto, depois do almoço, o tempo melhorou. Carreguei a mochila e a máquina fotográfica e pus-me a caminho. Do parque à margem da barragem é um pulinho.

Barragem de Vilarinho das Furnas
Virando à direita, para o estradão de terra batida, vai-se dar, uns bons quilómetros depois, à estrada que vem da Portela do Homem, para o Gerês, na mata de Albergaria. Eu não pretendia chegar tão longe. O tempo melhorara bastante e foi necessário despir o impermeável. Pouco depois, um marco ferrugento anunciando um acesso à geira, através de uma tosca escada, convidava a descer até às águas. Aceitei o convite, mas abdicando do apoio mais que duvidoso do improvisado corrimão de madeira que já conheceu melhores dias.

Depois de apreciado um pouco daquele silêncio e da beleza do local, voltei a subir até à estrada de terra. De longe em longe passava um carro, que, naquele silêncio absoluto se fazia anunciar com muita antecedência.




 A água era omnipresente. O cantar de regatos a correr, ou de cascatas a cair das alturas acompanhava-me em todo o percurso.










O ano bastante chuvoso contribuiu generosamente para toda esta abundância de água, característica aliás de todo o parque nacional da Penêda-Gerês.



Esta antiga estrada romana que ligava as cidades de Bracara Augusta a Asturica Augusta, estava marcada em milhas, agora recriada em marcos feitos de materiais que os romanos não conheciam...

Marco que assinala a 31ª milha




Depois de percorridos alguns quilómetros naquele paraíso, cheguei ao meu objectivo: o conjunto de marcos miliários deixados pelos romanos. Estes marcos eram colocados entre cada 1480 m em todas as estradas do império. Nesta via, conhecida como Via XX, ou "per loca marítima", ainda é possível ver bastantes. 



Neste local, além dos marcos em posição vertical, é também possível encontrar nas imediações, as rochas graníticas com as marcas testemunhas do método utilizado para cortar os blocos que depois eram aparelhados tendo em vista obter estes marcos de cerca de 2 toneladas. Eles cravavam cunhas de madeira, que pouco a pouco obrigavam a penetrar a rocha até esta se partir.




Marcas das cunhas na rocha


São estes contactos íntimos com a história, com a geografia, a etnografia, a antropologia, mas também com a botânica, a zoologia ou a biologia, que enriquecem sempre as minhas deambulações por onde quer que ande. Para passar os dias em esplanadas ou cafés, não preciso ausentar-me de casa...


Atingido o objectivo do dia ( sim, estes são agora os meus objectivos...), não avancei mais. Para a frente encontraria os viveiros de trutas e depois de uma grande subida, a estrada alcatroada que vem da Portela do Homem. Mas, como disse, voltei para trás. Estava calor, agora. Mas debaixo daqueles túneis de verdura o calor suportava-se bem.


No regresso as subidas parecem sempre mais íngremes... Por fim, lá cheguei ao parque, um pouco cansado, mas deliciado com o dia. Ainda era meia tarde, com tempo suficiente para um banho, um lanche reforçado, e as actualizações permitidas pelo Wifi, na paz permitida pela época baixa e pela benignidade do clima. Mais um dia passado.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

PRIMAVERA NO GERÊS - 3

   O dia amanheceu "farrusco". Tomado o banho e o pequeno almoço, parti para a cidade, para umas compras. Entretanto, já caía uma chuva miudinha que tudo cobria sob o seu manto. Feitas as compras, segui na N 103, uma das mais bonitas estradas portuguesas. Pouco depois, Curalha, onde existe uma antiga estação da linha do Tâmega, recuperada, agora pertencente a um particular. Passo Sapiãos, onde há um cruzamento para Boticas, mas começo a subir para Montalegre. No entanto, opto por não visitar a vila desta vez e continuo junto às águas da albufeira de Pisões, ou Alto Rabagão. Este era o maior lago artificial da Europa, antes da construção de Alqueva. A chuva agora era mais intensa, juntando-se-lhe um nevoeiro cerrado. Em Penedones, virei à esquerda para o parque de campismo, onde também existe um acesso ao lago. O parque está aberto todo o ano, mas nesta altura estava vazio. Fui até à beira de água, absorver aquele silêncio sepulcral. Em frente, do lado oposto, divisava-se Vilarinho de Negrões.

Barragem do Alto Rabagão - Vilarinho de Negrões
  Apanhada aquela chuvinha revivificadora, regressei para continuar a contornar o lago até ao paredão, que vale a pena visitar, embora não o tivesse feito desta vez. Nesta zona existe um dos maiores conjuntos de centrais hidroeléctricas do país, nos rios Cávado, Rabagão e Homem: Paradela, Alto Rabagão, Alto Cávado, Venda Nova, Salamonde, Caniçada, Vilarinho das Furnas. A estrada acompanha o rio Cávado e pouco depois, chego à barragem de Venda Nova, também à cota máxima. Local ideal para saborear a mega-costeleta comprada em Chaves.

Vista da minha cozinha - Barragem de Venda Nova
Despachada a costeleta, prossegui por um dos troços mais bonitos da estrada. A água acumulada da albufeira de Salamonde está mesmo ao nosso lado, irrigando os campos e montes verdes que são o regalo do gado barrosão que pasta livremente e em quantidade. A estrada agora começava a subir e o rio já só se deixava ver, parando num dos muitos locais destinados à sua observação. Do outro lado, as montanhas características da serra do Gerês também já se viam, em toda a sua imponência. É aconselhável parar várias vezes, pois a paisagem sempre diferente e sempre grandiosa, vale a pena. Perto do cruzamento que dá acesso à pousada de S. Bento, já se vê lá em baixo Rio Caldo e as suas célebres pontes gémeas.


Começo a descida, pela estrada sinuosa e apertada, com uma vista espectacular para a albufeira da Caniçada. Finalmente chego às pontes, onde paro para usufruir da paisagem e do sol que entretanto aparecera.

Rio Caldo
Deleitado, comecei a subida para o santuário de S. Bento da Porta Aberta. Este, habitualmente repleto de gente aos fins de semana, estava relativamente calmo. Debruçado sobre um vale glaciar, está num local com uma vista linda. Visitei-o demoradamente, absorvendo a paz que ali se respira e depois percorri o seu lindo jardim, em frente, com farto arvoredo, cascatas e lagos.




Estes jardins, cheios de peregrinos em dias de romaria, estavam agora desertos e silenciosos, prontos para mim...










Feita a visita a todo o recinto do santuário, que é enorme, parti, rumo ao meu destino desse dia. Há água em abundância por estes sítios. Ouviam-se cascatas e regatos a cantar a cada canto, a cada curva. Pouco depois entro em Covide, onde apanho a estradinha para Campo do Gerês. A partir daqui, existem inúmeros restaurantes e cafés, bem como empresas de actividades radicais e de ar livre. A vegetação é luxuriante oferecendo-nos sombra e frescura. Aparece o cruzamento onde está edificado o museu de Vilarinho das Furnas, que aconselho vivamente e sigo em frente para Campo do Gerês onde passo sem parar. Uns 2 Km a seguir, ainda a meio da tarde,  chego ao meu destino, o parque de campismo de Cerdeira, um dos melhores do país. Como ainda era cedo, resolvi não entrar de imediato e seguir até à barragem de Vilarinho das Furnas, local que me deixa sempre forte impressão, pela beleza selvagem da paisagem, mas sobretudo por ter estudado e conhecer bem toda a história agora escondida sob as águas da albufeira concluída em 1973 e que submergiu a aldeia mais característica e que preservava quase intactos os hábitos de vida comunitária herdados de geração em geração desde há séculos. Barragem que nem produz energia, servindo apenas de reforço à barragem da Caniçada, a uma cota inferior e a que acede por uma intrincada e complexa rede de túneis por baixo das montanhas.

Ao fundo, arvoredo onde começava a aldeia de Vilarinho das Furnas, submersa nas águas da barragem
Sempre que há anos secos e o Verão se prolonga, lá rumo eu até aqui, para percorrer os caminhos enlameados no meio das ruínas fantasmagóricas que as águas baixas da albufeira deixam aparecer à superfície. Antigamente a estrada acabava aqui no paredão. Agora, pavimentaram um antigo caminho que serpenteia agarrado à montanha, da largura de um carro apenas e que vai até à aldeia de Brufe, depois de um percurso impróprio para quem tem vertigens ou receio de aventuras. Lá obriguei a autocaravana a entrar nele, embora ela tivesse pouca vontade de o fazer. Só existe um local para se poder cruzar, caso aconteça. Felizmente, os aventureiros são em número bem reduzido e naquele dia não havia nenhum, de modo que consegui fazer o caminho de ida e volta sem percalços.

Único local para cruzamento

Absorvido o silêncio e a mística do lugar, regressei, agora sim, para entrar no parque e preparar a minha base para os dias seguintes.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

PRIMAVERA NO GERÊS - 2

   Terça-feira. Era dia de partir um pouco mais para norte. O dia estava muito cinzento e ameaçava chuva. Pago o parque, parti parando à saída da cidade para abastecer no E-Leclerc. Eu e o caracol! Cheio o depósito e comprado um enorme e suculento bife que prometia um lauto almoço, segui, rumo à Régua. A velhinha N 2 que sobe da Régua para Vila Real, é um encanto. Cheia de curvas e de beleza, para quem não tem pressa é a escolha acertada. Serpenteio por meio de vinhedos, dos dois lados e a perder de vista. Passo Lobrigos, Stª Marta de Penaguião e pouco depois chegava ao novo e enorme viaduto em construção sobre o vale do Corgo, na A-4.

Parada de Cunhos, IP-4 para contornar Vila Real e apanhar de novo a N 2 rumo a Chaves. Passada Vila Pouca de Aguiar, que melhor local para almoço que o parque termal de Pedras Salgadas?
Estas termas, uma das principais de Portugal, passaram um mau bocado. Ainda há poucos anos o parque estava ao abandono, com algumas ruínas de grandes hotéis e de instalações termais. Felizmente, um grande grupo cervejeiro adquiriu-as e revitalizou a actividade termal, salvando uma das jóias da zona.

Lago- termas de Pedras Salgadas


Depois de percorrer o belo parque e inspirar aquele ar retemperador, abriu-se-me o apetite de forma avassaladora e tive que recolher-me à cozinha.







Pedras Salgadas


Morta aquela que me matava, parti para Vidago. É sempre com nostalgia que vejo os edifícios das estações de caminho de ferro abandonadas, da linha do Corgo. Pouco depois das 3 horas, chegava à Quinta do Rebentão, que fica a uns 4 Km antes de Chaves. Era o poiso escolhido para este dia. Este parque de campismo é muito agradável e barato. Tem muita vegetação que nos proporciona fartas sombras, essenciais em tempo de calor, um regato atravessa o parque, transmitindo uma sensação de frescura e de ambiente bucólico e é sossegado, especialmente nesta época do ano. A piscina municipal é mesmo ao lado do parque e também existe um bom restaurante. Como ainda era cedo e a tarde até estava amena, ainda houve oportunidade para trabalhar um pouco, debaixo do arvoredo.
Quinta do Rebentão-Chaves

segunda-feira, 3 de junho de 2013

PRIMAVERA NO GERÊS - 1

   Na segunda semana de Maio decidi ir apanhar o ar puro do Gerês, aproveitando a previsão de alguma melhoria do tempo prevista para essa semana. E lá fui no domingo, dia 5, por Coimbra, IP-3 até Viseu, entrei na A-24 para não ter que contornar as 23 rotundas dentro da cidade para quem sai para Norte, e saí na rotunda de Viseu Norte, para não pagar portagens na A-24. A partir daí segui na N 2, que antigamente estava vazia e agora parece que recuou 15 anos, cheia de trânsito... Paragem na ermida da Srª da Orada, depois de Castro D'Aire, para almoço e pouco depois estava em Lamego, destino para o 1º dia. Abriu aqui recentemente um parque de autocaravanas, logo à entrada da cidade, junto às caves Raposeira e decidi experimentá-lo. O local era anteriormente uma quinta, com uma estalagem agora em ruínas. O recinto exterior foi aproveitado, construídas casas de banho e lavabos e está rentabilizado o espaço.
Tem algumas árvores de grande porte e um caramanchão com uma excelente vista sobre a cidade, onde se pode descansar em sossego. Tem Wifi, de qualidade sofrível, pois cai com frequência e os preços estão um pouco inflacionados para a oferta, na minha opinião, mas os estrangeiros já o procuram com regularidade.
    O dia seguinte estava reservado para o comboio da linha do Douro. Saí cedo, rumo à Régua, pela A-24. Lamego não foge à regra do caos em ano de eleições autárquicas. Os pisos da praça central estão todos levantados, há pedras e pó por todo o lado, desvios, taipais, máquinas, um inferno! Cheguei muito cedo à Régua e ainda tive tempo para percorrer a ponte velha agora aproveitada como travessia pedonal.
Ponte pedonal - Régua











Por baixo passava um navio de cruzeiro, para acostar mais à frente.


Em baixo, mesmo junto ao Douro está em fase de acabamento uma área de serviço para autocaravanas, zona onde também existem muitos lugares para estacionar outras viaturas.

Eram horas de comprar o bilhete de comboio. Desta vez o objectivo era seguir para Oeste, para o lado do Porto, ao contrário do que é habitual em mim. A linha segue sempre à beira do rio até ao apeadeiro de Pála. Era pois até aqui que eu queria ir, para apreciar as belas paisagens ribeirinhas e passar em cima do mais alto viaduto ferroviário português, precisamente o de Pála. O dia estava cinzento. O comboio desfilava por Caldas de Moledo, onde a Ferreirinha se banhava nas termas e agora está ao abandono, Rede, onde desembarcou o Primo Basílio, do romance de Eça, vindo de França, quando esta linha ia até Salamanca, Caldas de Aregos com as suas termas recuperadas do lado oposto do rio.

Caldas de Aregos vistas do comboio.
Pouco depois, Mosteirô e a sua bela ponte, o Hotel Porto Antigo onde fico quando preciso de me mimar e o lago formado pela albufeira da barragem de Carrapatelo. Entramos num local de rara beleza.
Porto Manso e mais à frente, Pála.






Em baixo, a localidade de Porto Manso e os dois viadutos altíssimos, atravessados os quais, chegamos ao apeadeiro de Pála, onde saio.







Vista do comboio de cima do viaduto de Pála




Tinha um quarto de hora até chegar o comboio de regresso à Régua, tempo que aproveitei para fotografias e para deliciar a vista com tão belas paisagens.





Hotel Porto Antigo e foz do rio Bestança
À espera do Primo Basílio?...




Há sempre barcos a subir e a descer o rio, apesar de ainda estarmos no início de Maio.







Antigo rabelo, descendo o Douro.




Passava pouco do meio dia quando chegámos de novo à Régua. Tempo ainda para uma volta pela antiga artéria comercial e depois pelo caminho pedonal à beira rio, que segue até à base das pontes. Lá estava a autocaravana à espera. Segui pela estrada que acompanhava o troço inicial da linha do Corgo e que ladeia a linha do Douro e o rio, até à barragem de Bagaúste. Depois pela linda estrada que vai para o Pinhão. A meio, o almoço, interrompido de quando em quando pela passagem de barcos ou comboios.

O Fernão de Magalhães entre o Pinhão e a Régua
Prossegui pela estrada que sobe até Tabuaço. Os vinhedos cobrem todas as encostas visíveis. Pouco depois desta vila, há uns penhascos altíssimos, com uma enorme escadaria em madeira que trepa até ao cimo. Já noutra ocasião subi até ao topo, de onde se obtém uma vista compensadora para tanto esforço. Chego a Moimenta da Beira e viro à direita, para Tarouca. Aqui chegado, há um desvio para Ucanha e Salzedas, que tomo. Em Ucanha existe uma curiosa ponte, com uma torre incorporada para cobrança de portagem. Por baixo, corre o rio Varosa.
Ponte e torre de Ucanha.



Ainda se pesca neste rio e ainda há moinhos de água, recuperados, junto à ponte.









Ponte de Ucanha e moinho de água.





Seguindo a estreita estrada municipal cheia de curvas, pouco depois entro em Salzedas, dominada pelo grande mosteiro cisterciense.





Mosteiro de Salzedas



De volta, já era tarde para visitar o belo mosteiro de S. João de Tarouca, onde já não vou há uns anos. Ficará para uma próxima viagem por estas bandas. Pouco depois, entrava em Lamego e suas obras, para mais uma noite.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

FDS - PORTO ANTIGO

    A Primavera parecia ter-se instalado nestes meados de Abril. Um convite irrecusável para um fim de semana de mudança de ares.
     Saímos no sábado, dia 20, rumo ao norte, pelo IC-2 até Oliveira de Azeméis, onde almoçámos, junto ao parque de La Sallete, ponto alto que domina toda a cidade. Verificámos com pena o encerramento definitivo de mais um parque de campismo, precisamente o de La Sallete. Prosseguimos  por Vale de Cambra e Arouca. Antes de alcançada esta bonita vila, como ainda era cedo, decidimos embrenhar-nos na serra da Freita, para observarmos o efeito de um Inverno rigoroso sobre a cascata da Frecha da Misarela. O "véu da noiva" estava lindo, como sempre, e de facto a água caía copiosamente.



Trata-se de uma das mais altas quedas de água da Europa, com cerca de 75 metros de altura, inserida num cenário de grande beleza paisagística. As águas do rio Caima, aqui ainda puras, frescas e límpidas, depois de alimentarem ervas tenras que crescem à beira do seu curso aproveitado para praia fluvial muito concorrida no Verão, tanto por pessoas, como por belas vacas arouquesas, precipita-se de um rochedo granítico, indo cair estrondosamente muito mais abaixo.

Frecha da Misarela

Rio Caima, antes da Frecha da Misarela


Visitado este local bucólico, surpreendentemente deserto, excepto uns jovens que ali estavam acampados, regressámos por Albergaria das Cabras (eu continuo a chamar-lhe assim, embora "oficialmente" agora se chame Albergaria da Serra), típica aldeia de montanha, Meruge e voltámos à estrada para Arouca, onde chegámos pouco depois. Para seguir para Castelo de Paiva, não é necessário entrar em Arouca, há uma rotunda antes da entrada, mas a placa sinalizadora, bem à portuguesa, só é visível por quem vem do centro da vila... Assim, entrámos em Arouca, demos-lhe bem a volta e depois voltámos para trás até à rotunda e assim já vimos a placa...
A estrada até Castelo de Paiva é um autêntico calvário de curvas apertadas, estreita, extensa e de paisagem monótona, sempre de eucaliptos. Depois de muito virar e revirar, lá chegámos finalmente a esta vila já bem perto do Douro. Sem parar, prosseguimos pela estrada que acompanha o rio, muito bonita, embora com muitas curvas e que segue para Cinfães. Antes porém, resolvemos fazer um pequeno desvio para visitar a barragem de Carrapatelo.
Barragem do Carrapatelo


Pouco depois passámos Cinfães e volvidos mais uns quilómetros chegávamos ao nosso destino, Porto Antigo e seu hotel debruçado sobre o Douro, no local onde o rio Bestança desagua e ao lado da linda ponte de Mosteirô, que transpõe o Douro que aqui se alarga para dar lugar à albufeira de Carrapatelo. É um local paradisíaco, com uma paisagem grandiosa que nunca cansa os olhos. O hotel foi adaptado da residência do explorador africano Serpa Pinto e é um dos que recomendaria a alguém que procurasse um recanto para um fim de semana romântico, com uma das melhores vistas de Portugal, uma excelente gastronomia e um serviço de primeira qualidade. As equipas das selecções nacionais de canoagem e de remo de vários países europeus que aqui estagiam anualmente, já o descobriram...
Ancoradouro do hotel e ponte de Mosteirô
Entrada para o hotel de Porto Antigo


Reúne alguns dos principais condimentos que elejo quando assumo a condição de viandante: fica literalmente "em cima" do Douro, tem excelente gastronomia, é um ponto estratégico para ver passar os barcos de turismo de todos os tamanhos e tipos e... tem a linha do Douro mesmo em frente! Que mais poderia pedir? Apetece ali ficar a ver correr os dias; sentado na esplanada a tomar um aperitivo ao final da tarde, sentido o imperceptível balouçar da estrutura que flutua no rio, vendo as cores a mudar no horizonte, esperando que nos sirvam o jantar que se pode prolongar depois ao sabor dos caprichos da meteorologia. Os únicos ruídos são os de um ou outro carro que passam na estrada e na ponte, os comboios que com alguma frequência passam em frente e os saltos e mergulhos dos peixes no rio.
Vista da varanda do quarto
Como a tarde ainda ia a meio, resolvemos atravessar a ponte e olhar a paisagem do outro lado do rio, passando por Porto Manso, com os viadutos do caminho de ferro ao lado, o célebre viaduto da Pála e a localidade com o mesmo nome, com uma vista espectacular sobre o rio no ponto onde a albufeira de Carrapatelo transforma o Douro num grande e maravilhoso lago.
Pála - ao fundo o hotel de Porto Antigo



Vagarosamente, regressámos para parar em frente do viaduto de Pála, à espera que o comboio aparecesse...








Viaduto de Pála








E lá apareceu...





Cais de Porto Antigo
Regressámos ao hotel, sentando-nos um pouco na esplanada, a gozar o afago do sol e a esplêndida paisagem.













A temperatura depois do sol se esconder não aconselhava o jantar na esplanada, por isso optámos pela ampla sala de jantar, toda rodeada de enormes vidraças, para nem ali se perder a soberba vista sobre o Douro.
Crepúsculo em Porto Antigo
Por sugestão da chefe de sala, escolhemos uma posta arouquesa, que vinha acompanhada por umas batatinhas a murro e uns grelos, bem acompanhados por um tinto do Douro, como não podia deixar de ser! A carne estava divinal! Tenríssima, com um sabor delicioso, proporcionou-nos um final de dia inexcedível. As sobremesas, em "buffet", eram também todas excelentes. O café, foi tomado na esplanada, junto às águas plácidas do rio. Tudo perfeito! A oferta e o serviço deste hotel pede meças ao das pousadas de Portugal.

    Já anoitecera entretanto e a paisagem modificara-se, mas não perdera qualidade. Com todas as quintas ribeirinhas iluminadas profusamente e a ponte cheia de luzes que lhe emprestavam um simulacro de incêndio, o espectáculo continuava.

Ancoradouro do hotel e ponte de Mosteirô.
 Mas o peso da lauta refeição entretanto já produzia o seu efeito, ajudado pelos eflúvios interiores do néctar duriense encaminhando-nos para o quarto. Ainda estivemos à varanda a apreciar tão linda paisagem e o efeito da piscina iluminada, por baixo dos quartos, mesmo a pedir um saltinho lá para dentro...


No dia seguinte pela manhã, nem apetecia sair da varanda do quarto que nos oferecia tão linda vista, com a vastidão do rio banhado pelo sol.









À varanda do quarto
Mas o pequeno almoço chamava por nós e a estas solicitações não convém fazer esperar... Até porque nós já conhecendo o banquete que constitui o pequeno almoço no hotel de Porto Antigo, apressámo-nos a descer para pôr freio ao stress digestivo. E não ficámos desiludidos!
   Depois de mais um festim gastronómico, preparámo-nos para partir, pois tudo tem um fim, especialmente o que é bom. Fomos ainda até meio do tabuleiro da ponte e depois de mais umas fotos, relutantemente partimos, não sem antes termos registado ainda a passagem de um último comboio sobre o viaduto da Pála...

Ainda um último comboio...
A estrada que sobe para Cinfães, tem um desvio que dá acesso à barragem de Carrapatelo. É estreitíssima e perigosa, mas só queríamos percorrê-la num curto troço para obter umas fotografias tiradas de um outro plano. Esta estradinha serve para dar acesso às inúmeras quintas de gente abastada que tem o privilégio de gozar estas vistas das suas moradias senhoriais.

Cascata dentro de uma quinta no Douro


Tiradas as fotografias, regressámos a Porto Antigo, agora para prosseguir na estrada que segue para Resende, sempre junto ao Douro










Logo a seguir, um dos barcos da Douro Azul, a caminho da Régua.


Acompanhámo-lo durante algum tempo, enquanto apreciávamos os imensos pomares de cerejeiras, com muitas ainda em flôr, prometendo saborosos e carnudos frutos daqui a 2 meses! E pouco depois, avistávamos a Régua, ao longe.

Régua, vista de Samodães
Desta vez não a visitámos, optando por seguir por Samodães, Cambres e Lamego. Decidimos almoçar aqui. Já se fazia sentir calor e fomos a pé desde o bairro típico de Almacave até ao centro, onde a cidade está toda escavada e esventrada, lembrando-nos que este é ano de eleições autárquicas... Procurámos a sé catedral, que é muito bonita, mas estava fechada! Enfim, o templo sede de um episcopado, encerrado a um domingo é um dos anacronismos em que somos férteis. Com o espírito inconsolável, decidimos desforrar-nos no corpo e logo ali ao lado da sé devorámos uns deliciosos nacos de vitela num dos inúmeros restaurantes típicos daquela zona da cidade. Eram horas de regresso. Seguimos pela nossa estradinha antiga, revisitando as povoações de pitorescas designações, Matança, Matancinha, Magueija, Magueijinha, até Castro Daire, prosseguindo depois por S. Pedro do Sul, Vouzela, Oliveira de Frades. Entre esta vila e Sever do Vouga, resolvi explorar uma cascata que sabia ali existir, num ponto da estrada. Depois de muito trepar e ultrapassar umas moitas de silvas, fui premiado com uma linda cascata que abastecia uma pequena lagoa de águas transparentes.


Continuámos pela bonita estrada que acompanha o rio Vouga e a antiga linha férrea do Vouguinha e que vai acabar em Albergaria a Velha. E depois, o costumado percurso pelo IC-2, por Coimbra, Leiria e Peniche.

    Mais um fim de semana de sonho, mas bastante real, com tudo perfeito. Até ao próximo!