segunda-feira, 8 de julho de 2013

PRIMAVERA NO GERÊS - 4

O parque de campismo de Cerdeira é um dos melhores do país. Para quem gosta de campismo desportivo, de tranquilidade, de proximidade com a Natureza, de ar puro, ou da mistura de um pouco de tudo isto, este é o parque ideal. Quando eu comecei a explorar estes sítios, há algumas décadas, não havia parques de campismo e era proibido acampar no Parque Nacional. Havia um local apenas, junto da barragem de Vilarinho das Furnas, onde era permitido montar tendas. Recordo-me com saudade dos banhos tomados naquelas águas, que eram os únicos possíveis então. Depois abriu o parque do Vidoeiro, junto às termas, mas que nunca me agradou, pela exiguidade do espaço, pela extrema dificuldade de manobrar um carro lá dentro ou de montar uma simples tenda num autêntico exercício de equilibrismo. Uns anos mais tarde abriu então o parque da Cerdeira, e esse sim, logo de início mostrou estar à altura da região onde está implantado. Está totalmente coberto por um frondoso arvoredo, é muito grande, tem 3 bons blocos sanitários, piscina, área de desportos radicais, minimercado, um bom restaurante, vários bungalows e apartamentos, cobertura wifi de internet, enfim, consegue aliar a fruição plena da natureza com o conforto de certas modernidades e mordomias.
   Este dia era dedicado à geira romana. Como a manhã estava ainda muito cinzenta e de vez em quando caía uma chuvinha miúda, decidi ficar por ali a vaguear pelo parque e esperar pela tarde. Almocei e de facto, depois do almoço, o tempo melhorou. Carreguei a mochila e a máquina fotográfica e pus-me a caminho. Do parque à margem da barragem é um pulinho.

Barragem de Vilarinho das Furnas
Virando à direita, para o estradão de terra batida, vai-se dar, uns bons quilómetros depois, à estrada que vem da Portela do Homem, para o Gerês, na mata de Albergaria. Eu não pretendia chegar tão longe. O tempo melhorara bastante e foi necessário despir o impermeável. Pouco depois, um marco ferrugento anunciando um acesso à geira, através de uma tosca escada, convidava a descer até às águas. Aceitei o convite, mas abdicando do apoio mais que duvidoso do improvisado corrimão de madeira que já conheceu melhores dias.

Depois de apreciado um pouco daquele silêncio e da beleza do local, voltei a subir até à estrada de terra. De longe em longe passava um carro, que, naquele silêncio absoluto se fazia anunciar com muita antecedência.




 A água era omnipresente. O cantar de regatos a correr, ou de cascatas a cair das alturas acompanhava-me em todo o percurso.










O ano bastante chuvoso contribuiu generosamente para toda esta abundância de água, característica aliás de todo o parque nacional da Penêda-Gerês.



Esta antiga estrada romana que ligava as cidades de Bracara Augusta a Asturica Augusta, estava marcada em milhas, agora recriada em marcos feitos de materiais que os romanos não conheciam...

Marco que assinala a 31ª milha




Depois de percorridos alguns quilómetros naquele paraíso, cheguei ao meu objectivo: o conjunto de marcos miliários deixados pelos romanos. Estes marcos eram colocados entre cada 1480 m em todas as estradas do império. Nesta via, conhecida como Via XX, ou "per loca marítima", ainda é possível ver bastantes. 



Neste local, além dos marcos em posição vertical, é também possível encontrar nas imediações, as rochas graníticas com as marcas testemunhas do método utilizado para cortar os blocos que depois eram aparelhados tendo em vista obter estes marcos de cerca de 2 toneladas. Eles cravavam cunhas de madeira, que pouco a pouco obrigavam a penetrar a rocha até esta se partir.




Marcas das cunhas na rocha


São estes contactos íntimos com a história, com a geografia, a etnografia, a antropologia, mas também com a botânica, a zoologia ou a biologia, que enriquecem sempre as minhas deambulações por onde quer que ande. Para passar os dias em esplanadas ou cafés, não preciso ausentar-me de casa...


Atingido o objectivo do dia ( sim, estes são agora os meus objectivos...), não avancei mais. Para a frente encontraria os viveiros de trutas e depois de uma grande subida, a estrada alcatroada que vem da Portela do Homem. Mas, como disse, voltei para trás. Estava calor, agora. Mas debaixo daqueles túneis de verdura o calor suportava-se bem.


No regresso as subidas parecem sempre mais íngremes... Por fim, lá cheguei ao parque, um pouco cansado, mas deliciado com o dia. Ainda era meia tarde, com tempo suficiente para um banho, um lanche reforçado, e as actualizações permitidas pelo Wifi, na paz permitida pela época baixa e pela benignidade do clima. Mais um dia passado.

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