terça-feira, 5 de junho de 2012

ATÉ AO REINO MARAVILHOSO - 4

Ponte sobre o rio Maçãs perto de Vimioso
   Quinta feira amanheceu luminosa. Às 7 horas já andava por fora a absorver a frescura matinal e a ouvir o coro da passarada. O guarda do parque, apesar de ter o horário de entrada às 9 horas, chegou mais cedo, o que me permitiu partir também antes das 9. O objectivo para este dia era visitar Puebla de Sanábria e o Lago. Saí pela N 218, minha velha conhecida, que me faz sempre lembrar uma viagem nocturna, num Agosto de há uns 25 anos, a caminho de Miranda do Douro debaixo de chuva e trovoada, em duas motos, por nos ter faltado a gasolina no Parque de Montezinho. Parei na ponte sobre o rio Maçãs para recordar esse episódio já tão distante. A partir de Rio Frio, entra-se no IP-4, que está transformado num estaleiro de obras, para construção da auto-estrada que já tem ali um troço em utilização, gratuito até ao nó de Bragança-Centro, onde saí. Não queria visitar a cidade, que conheço bem, mas apenas ir ao hipermercado abastecer-me. A manobra custou-me uma hora perdida. Voltei a apanhar a A-4 para sair para o Parque Natural de Montezinho. Adoro percorrer estas estradas na Primavera, quando os campos se enchem de flores de todas as tonalidades, o ar está repleto de cheiros e a temperatura amena nos acaricia a pele. Até França, a estrada é sempre acompanhada pelo rio Sabor, que irriga vales férteis e bosques frondosos. A partir daqui começa-se a subir e a paisagem torna-se mais árida, nas imediações da Serra de Montezinho.

Rio Sabor - Rabal

Passo Portelo, última povoação portuguesa e cruzo logo de seguida a fronteira, apenas perceptível pelos inevitáveis edifícios esventrados, antigos postos alfandegários, de um lado e do outro vítimas da mesma sanha vandálica. A estrada até Puebla é de montanha, atravessando a Sierra de la Gamoneda, por um entrançado de curvas que parecem não ter fim, apenas interrompidas por duas ou três pequenas povoações com casas em ruínas e habitadas por alguns velhinhos. Pouco depois entro em Puebla de Sanábria, debaixo de calor. Antes de estacionar para dar uma volta dentro da bonita cidadezinha fui ainda à estação de caminho de ferro, que tem um edifício lindo e inconfundível.


Estação de Puebla de Sanábria
Por aqui também já só passam comboios especiais e creio que a linha será entretanto desactivada, pois está em construção uma de alta velocidade, da Galiza a Madrid, que ficará quase paralela a esta. Percorri a zona histórica, muito bonita, com ruas cheias de edifícios cuidados, todos em pedra e telhados em ardósia, muitas floreiras lindas que transformam a cidade num jardim com casas! Ao cimo a plaza mayor com a igreja, fechada, e o castelo. Lá em baixo corre o rio Tera que tempera com um pouco de bucolismo o ar austero e severo de todo o conjunto histórico.
Eram horas de almoço, o calor apertava e era preciso prosseguir para o Lago de Sanábria. Este fica a cerca de 15 Km a norte. Pouco depois de se sair da cidade começam a ver-se extensos soutos e carvalhais. Há um posto de abastecimento de combustíveis da Galp, onde costumo parar. Enchi o depósito com gasóleo a 1,35 €. A diferença para os nossos preços já foi maior... E lá cheguei ao lago. A praia que daqui a um mês estará cheia, encontrava-se deserta. Só duas autocaravanas estacionadas, onde os donos almoçavam, o que me convidou a fazer o mesmo.
Plaza Mayor de Puebla de Sanábria


















Rua de Puebla
Estava a gozar aquele silêncio à beira da água, quando chegou um autocarro carregado de crianças de uma escola. Mais de 50 gargantas em algazarra foram o sinal de partida para mim. Percorri a restante estrada à beira do lago, num percurso de grande beleza, até onde esta termina, na aldeia de Ribadelago (vieja), aldeia reconstruída depois da anterior ter sido engolida pelas águas de uma barragem cujo dique rebentou sob a pressão das águas há 53 anos.
Retrocedi devagar e virei para o lado da aldeia de San Martin de Castaneda. A estrada de cerca de 5Km, muito estreita e sempre a subir, vale a pena. O lago, muito azul, lá em baixo, é presença constante e só por isso é compensador. Quando se chega lá acima, bem depois de atravessar a aldeia, o espectáculo é arrebatador. É imperdoável não ficar ali parado uns minutos, a olhar, a sentir o silêncio, a contemplar todo aquele espectáculo verde com o centro ocupado a azul, pelo maior lago de origem glaciar da península ibérica.
Ribadelago (vieja)


Lago de Sanábria
Lago de Sanábria ( de San Martin de Castaneda)

        Eram horas de iniciar o regresso. Para não voltar pelo mesmo caminho, optei por entrar na A-52 em Puebla até à saída 49, por Villardeciervos, Mahide e Alcanices. Não parei nesta cidade, famosa pelo tratado aqui assinado entre Portugal e Leão e Castela em 1297, porque tinha que estar no parque de Vimioso até às 17,30 H. Como fica a pouco mais de 20 Km de Vimioso, não perde pela demora... Cheguei mesmo a tempo de entrar, instalar-me de novo, e aproveitar o resto da tarde, tomando posse de todo o espaço com os direitos da qualidade de único ocupante...

sexta-feira, 1 de junho de 2012

ATÉ AO REINO MARAVILHOSO - 3

Castelo de Algoso
     Este terceiro dia estava reservado ao património. Queria observar os três castelos daquela zona restrita, entre Mogadouro e Vimioso. Castelos de Mogadouro, Penas Róias e Algoso. Despedi-me do parque de campismo de Mogadouro e parti rumo a Norte, pela N 219. Logo após 5 Km, surge a aldeia de Azinhoso, que possui uma igreja de estilo românico, do séc. XIII. Eu já desisti de tentar visitar estas igrejas que existem um pouco por todo o lado, algumas, autênticos tesouros desconhecidos de quase todos. Estão permanentemente fechadas, devido ao clima de insegurança e medo que se sente nestas aldeias despovoadas. Mesmo que se procure a responsável pela guarda das chaves, que nem sempre se consegue encontrar, em alguns casos só as faculta com autorização do presidente da junta de freguesia. Assim, segui para Penas Róias que se segue imediatamente. Mais uma aldeia com meia dúzia de habitantes de idade avançada, que desaparecem quando me avistam. Esta povoação tem um parque de merendas muito agradável antes da subida que lhe dá acesso, junto à barragem de Penas Róias. Subi ao castelo, reduzido a uma torre em ruínas. Procurei a Fraga da Letra, pintura rupestre que sabia existir junto às muralhas, mas em vão. Sem ninguém a quem recorrer para indicações precisas, desci e parti para o objectivo seguinte: Algoso. A alguns quilómetros ainda, já se avista o castelo, edificado no cimo de um rochedo que, desta vertente sul cai abruptamente a pique sobre um desfiladeiro onde corre lá muito no fundo, a ribeira de Angueira. Atravessei toda a povoação, passando pelo pelourinho e no fim de uma comprida subida de acesso com várias estações de uma via sacra, surge uma pequena capela e o castelo. O tempo estava óptimo, mas a temperatura subia rapidamente. Trepei ao castelo, que é pequeno em tamanho mas grande em história.
Castelo de Mogadouro
Ali fiquei por largo tempo, absorvendo o profundo silêncio e a sensação de absoluta solidão. Ao longe e bem no fundo do precipício, avistava-se uma ponte românica, que sabia ali existir e que exerceu em mim uma profunda atracção. Se não fosse agora, provavelmente nunca mais lá voltaria. O sol picava na pele, o calor já era intenso. Não vislumbrava nenhum caminho a partir do castelo, apenas um trilho lá bem abaixo. Desci até à capela, que contornei. Nas traseiras, havia um caminho com uma inclinação que mais parecia uma parede de escalada, com o piso de areão, aberto por sulcos profundos cavados pelas águas da chuva. Aparentemente, ao que podia ver, ia desembocar no outro caminho lá muito em baixo. Com a mochila ao ombro, a máquina fotográfica, e o bastão a auxiliar-me para não escorregar, decidi-me a aventurar-me na perigosa descida. Ao fim de poucos minutos, olhando para trás, já o castelo ficava bem longe, muito no alto. Tentei não pensar que teria que subir tudo aquilo na volta...
Castelo de Penas Róias


 Os caminhos parecem sempre menos longos do que são efectivamente. Este nunca mais tinha fim. A única presença eram muitos lagartos, que me olhavam espantados e desapareciam rapidamente. Depois de muitas voltas e curvas, finalmente cheguei à ponte e ao rio. A técnica e a arquitectura são perfeitas para a época. Só se ouvem rãs e gritos das aves de rapina que me espreitam lá do alto. O isolamento é total. Por momentos pensei nas consequências de um simples entorse, por ali. Ninguém sabia onde estava e o telemóvel, claro que não tinha rede... Não sei de quantos em quantos dias passaria ali alguém...

Afastando estes pouco tranquilizadores pensamentos, tirei as fotografias, descansei um pouco e comecei a penosa subida. O caminho aberto possivelmente para tractores, faz-se razoavelmente bem. Mas o outro com o enorme declive... A água desaparecia perigosamente na garrafa, o suor corria em fio pelo queixo, os pulmões sorviam o ar quente e queixavam-se ruidosamente e eu agarrava-me ao bastão, que foi preciosíssimo auxiliar para não escorregar por ali abaixo.

Ponte vista do castelo de Algoso


Ao fim do que me pareceu uma eternidade, cheguei ao cimo, sem fôlego, sedento e com as pernas bambas. Apesar de não ter fome, era preciso retemperar forças. Dentro da autocaravana o ambiente era de fornalha. Fiz um petisco à sombra da capela e ali mesmo comi. Nestas situações é maravilhoso dispôr de frigorífico!
Após um merecido e necessário descanso, voltei a atravessar Algoso e rumei a Vimioso, onde cheguei pouco depois. A vila é pequena mas acolhedora. Dei um pequeno passeio a pé, mas o calor e o cansaço não convidavam a grandes caminhadas. Por isso, dirigi-me ao parque de campismo que fica um pouco fora da vila a cerca de 1 Km. Já o conhecia de anos anteriores. É agradável, com bastantes pinheiros de grande porte, boas instalações e bem cuidadas, mas completamente vazio. Chegada a noite, com os portões fechados, apenas duas lanternas acesas e os ralos a cantar, o ambiente perfeito para me entregar placidamente nos braços de Morfeu...

A ponte vista do meio do percurso
Ponte romana-Ribeira de Angueira

quarta-feira, 30 de maio de 2012

ATÉ AO REINO MARAVILHOSO - 2

Parque de campismo de Mogadouro
O parque de campismo de Mogadouro é muito agradável.  Fica na zona nova da vila, integrado num complexo desportivo que inclui piscinas, coberta e exterior, campo de futebol, "courts" de ténis e uma escola secundária. É espaçoso, com sombras e bem tratado, embora as instalações sanitárias tenham algumas marcas de vandalismo, apesar de serem muito recentes. Ainda não tinha pernoitado neste parque, pois nesta zona tenho dado preferência aos parques de Vila Flor, Mirandela e Valpaços. Terça-feira estava reservada para a exploração da zona sueste do concelho, com especial enfoque na Bemposta e antigas estações ferroviárias da linha do Sabor. E lá parti à descoberta. A 5 Km de Mogadouro fica a sua estação. É uma amálgama de destroços, entre o edifício principal, o armazém, casas para funcionários, depósitos e restantes apetrechos. As imediações não estão em melhor estado. De modo que o ambiente é deveras deprimente, convidando a procurar outras paragens. É o que faço, tomando logo em seguida, em Santiago, o desvio para Peredo de Bemposta. Procurava um trilho que parte daqui e vai até ao rio Douro. Estacionei a autocaravana no início do povoado e, munido da mochila, máquina fotográfica e um cajado-bastão que vem dos Picos da Europa e que é mais útil para pôr cães em respeito do que para auxiliar na caminhada. O trilho está bem sinalizado desde o início e o piso é excelente, no início em paralelepípedos e depois em terra batida. Sempre a descer, com o sol a aquecer cada vez mais e a sede a apertar, o caminho prolongava-se muito mais do que me haviam anunciado. Afortunadamente, num terreno cultivado após uns 2 ou 3 Km e sem ter visto vivalma até ali, vislumbrei um velhote a tratar dos campos. À minha pergunta sobre o caminho, respondeu-me com ironia, dizendo que ainda faltava umas três vezes o que já tinha andado! Hesitei; não ia preparado para tanto tempo de caminho, nem para o calor e sol intenso. Não tinha água suficiente nem comida e o caminho que estava a fazer a descer, teria que subir de volta. Decidi parar logo que visse o rio. E de facto, umas centenas de metros à frente, avistei-o, em baixo, com um caudal reduzido por ter a barragem perto a montante, contornando as montanhas. Tirei as fotos e comecei a subir o caminho de volta.

A subida é sempre mais penosa que a descida, sobretudo debaixo de sol. Não tinha boné e o cabelo também não tinha ido comigo... De modo que o resultado foi um "escaldão"! Finalmente cheguei, acalmei momentaneamente a sede e a fome e parti por Algosinho, Tó, e de novo na N 221 pus-me a caminho de Sendim, em busca do almoço. Estando ali era imperdoável não ir almoçar ao restaurante "Gabriela", ex-libris gastronómico de Trás-os-Montes. Foi aqui que nasceu a posta mirandesa, prato que hoje faz parte do cardápio de qualquer restaurante que se preze, nesta província.

Com um aspecto despretensioso, se não se souber a sua história, não se adivinha por fora o que se come lá dentro. Uma posta mirandesa divinal, bem merecida depois do esforço que acabara de fazer. Saí para ir até às ruínas da estação de Sendim. O mesmo cenário de destruição. Voltei à estrada para fazer o caminho inverso até Urrós. Mais uma vistoria à estação local. As imagens falam por si!


Depois da pequena amostra daquilo a que está reduzida a rede ferroviária nacional, dirigi-me a Bemposta, com o objectivo de visitar mais uma vez a barragem que faz parte do aproveitamento hidroeléctrico do Douro internacional. Descida íngreme, com paragens frequentes para olhar o rio de diversas panorâmicas. Finalmente a barragem, agora pintada de amarelo a mando de alguém que achou divertida tal ideia. Local deserto, debaixo de sol inclemente. E ainda é Maio...

Restava-me regressar a Mogadouro, o que fiz em seguida, pelo novo IC-5, para o experimentar. Esta nova estrada é quase paralela à velha N 221. A tarde ainda ia a meio, o que me permitiu descansar à sombra das árvores do parque, lendo e enviando uns mails, vício que a tecnologia agora permite em quase todo o lado. E estava quase passado o segundo dia.

terça-feira, 29 de maio de 2012

ATÉ AO REINO MARAVILHOSO - 1

    Com tanta gente a pedir políticas de crescimento e de emprego, decidi dar o meu contributo e parti para o Reino Maravilhoso de Torga, em digressão, por uma semana. Estimulei assim o EBITDA de postos de combustíveis, restaurantes, supermercados e parques de campismo.
     Saí de S. Bernardino na segunda feira, 21 de Maio. Cumprindo uma promessa feita a mim mesmo, de não utilizar as ex-SCUT, a não ser em casos extremos e evitar ao máximo todas as autoestradas, utilizei apenas a A-15 até Santarém, como já vem sendo habitual. Atravessei a ponte Salgueiro Maia e segui por Almeirim, até à Chamusca, onde parei no Pingo Doce para abastecer de gasóleo, já que é um dos locais com preço mais favorável. Aproveitei também para efectuar algumas compras, tendo prosseguido por Tramagal e Rossio ao Sul do Tejo. Neste ponto, antigamente, atravessava o Tejo, para entrar na A-23 no nó de Abrantes. Agora, utilizo a velhinha N 118 que, ao entrar no distrito de Portalegre, começa a mostrar-nos um território cada vez mais despojado de gentes, de povoações desertas, cheias de casas desabitadas e apenas alguns idosos cabisbaixos, sentados à porta de cafés. Atravessando Nisa sem parar, cheguei a Vila Velha de Ródão à hora de almoço e decidi ali fazer a primeira refeição.


Portas de Ródão
Tomado o cafèzinho habitual e como não aparecia nenhum comboio, arranquei para mais uma etapa, até Castelo Branco. Convém frisar que, como conheço muito bem estas cidades é raro deter-me nelas, reservando o tempo e recursos para o objectivo principal, no presente caso, a terra fria transmontana. Como normalmente atravesso a Beira Baixa por Fundão até à Guarda, desta vez optei por seguir pela N 233, por Penamacor, parando no Sabugal, para esticar as pernas e apanhar ar. Percorri as margens do Côa até às imediações do castelo de cinco quinas.


Vila Velha de Ródão
Castelo de Sabugal
Segui então por uma estrada pouco conhecida, a N 324, que atravessa uma zona incaracterística, salpicada aqui e ali de pequenas povoações envelhecidas, sem capacidade para reter as gentes mais jovens, condenadas à desertificação a breve prazo. O solo é muito pobre e não há outros meios de subsistência alternativos.




















Ainda parei numas termas praticamente desconhecidas, onde subsistem duas realidades distintas: as antigas instalações em ruínas e ao lado um balneário novinho em folha, com todas as comodidades e tecnologias modernas. Termas de Cró. No entanto, são uma ilha no meio de território um pouco inóspito, ali plantadas sem qualquer apoio de infraestruturas hoteleiras e similares. Terá este investimento um futuro risonho?


Termas de Cró ( antigas instalações)




Termas de Cró - Novo balneário
      Prossegui por Terreiro das Bruxas, até Almeida. Esta vila fortificada, que fica dentro da maior praça forte do país, merece uma visita demorada, que já fiz em diversas outras vezes. A opção por não utilizar autoestradas, tem custos de tempo e de maior cansaço, compensados por uma melhor gestão das paragens e de usufruto de paisagens e contacto com localidades e suas gentes. Já era meia tarde e queria chegar cedo a Mogadouro, por isso era preciso não perder tempo. Lá continuei por Figueira de Castelo Rodrigo, também sem parar em Castelo Rodrigo, paragem obrigatória para quem não conhece esta aldeia, palco de tantas batalhas em defesa da nossa independência, baluarte e atalaia vigilante que fazia parte da linha de defesa do Côa. De Figueira até Escalhão, sucedem-se as curvas apertadas que atravessam um território lunar, com enormes penedos de granito. A aldeia surge então, tutelada pela silhueta da sua enorme igreja, que já tenho encontrado aberta em outras ocasiões. Tem algumas casas senhoriais, brasonadas, que ficaram como testemunho de tempos mais gloriosos. A partir daqui, a estrada começa a enorme descida que só termina em Barca D'Alva, que dista ainda 13 Km. Não se dá por eles, tal a beleza deste troço. A partir do Alto da Sapinha, miradouro onde é obrigatório parar e apreciar as vistas demoradamente, a estrada contorna montanhas cobertas por amendoeiras que se pintam de branco no fim do Inverno, numa das mais belas paisagens portuguesas. Há também muito olival e vinha. Ao fundo, vê-se de um lado o rio Águeda, que aqui serve de fronteira com Espanha e que desagua no Douro lá em baixo, em Barca D'Alva. Precisamente nesse ponto, avistam-se as duas pontes internacionais, a rodoviária e a ferroviária, desactivada desde a década de 80 e que dava aqui início a um dos troços ferroviários mais bonitos do mundo, sobre as gargantas do Águeda.


Vista do Alto da Sapinha - Foz do Águeda

À chegada a Barca D'Alva há um desvio à direita que segue para Espanha e que dá também acesso à desactivada ponte ferroviária. Vale a pena dar uma vista de olhos. Barca D'Alva, outrora importante entreposto fronteiriço e que vivia do caminho de ferro é agora uma aldeia de gente idosa igual a milhares de outras em Portugal. Mas o seu renovado cais onde entre Abril e Outubro se vêem grandes barcos de turismo que sobem e descem o Douro, veio trazer nova vida e movimento a esta bonita e aprazível localidade. Aqui parei para olhar as águas plácidas, a linda ponte sobre o Douro e os grandes barcos atracados no cais.




Era tempo de fazer a última etapa do dia. Atravessei a ponte Almirante Sarmento Rodrigues e entrei no distrito de Bragança. Os quilómetros seguintes, até ao miradouro sobre a barragem espanhola de Saucelle, são muito bonitos, com a estrada sempre ladeada pelo Douro.

 

 Em vez de carros, temos apenas a companhia de aves de rapina que cruzam os céus em grande quantidade, lá para os lados do Penedo Durão, fraga imensa que se debruça sobre a garganta onde se situa a barragem. A partir daqui deixamos o rio e começamos a subida até Freixo de Espada à Cinta, onde entro pouco depois. Esta vila tem uma torre heptagonal muito interessante e igrejas antiquíssimas que vale a pena visitar. Daqui parte a estrada que dá acesso a uma excelente praia fluvial, com boas infraestruturas turísticas, a praia da Congida. Parei para comprar azeite na cooperativa onde habitualmente me abasteço. Prossegui então por Lagoaça e logo a seguir fui estrear o novíssimo IC-5, que me levou até Mogadouro, destino para o primeiro dia.



















sábado, 21 de abril de 2012

FRANÇA 2010 - EPÍLOGO

    Tentando agora fazer um pequeno balanço geral da viagem, concluímos que percorremos 4500 Km, gastando 358 € em gasóleo. Este, quer em Espanha quer em França, estava a um agora saudoso preço médio de 1,07 € o litro.
     Quando saímos do nosso país, é normal que façamos comparações com o que vamos encontrando. Nós portugueses, temos muito o hábito de considerar que tudo o que vem ou está lá fora é melhor do que o que temos ou produzimos, o que em muitíssimos casos não corresponde à verdade. Por exemplo, as estações e áreas de serviço, nomeadamente as espanholas, são muito inferiores às nossas, principalmente as instaladas


 em auto-estradas e vias rápidas, em que se tem que sair da via principal, não poucas vezes por centenas de metros até à localidade mais próxima e com deficientes indicações para retornar à via rápida. Por falar em indicações, Espanha é muito parecida a Portugal neste aspecto. Deficiente sinalização indicativa, parecendo muitas vezes que é dirigida unicamente a quem já conhece bem os locais. Em França é bem melhor, não há localidade por mais insignificante que seja, que não esteja bem sinalizada, nem há cruzamentos a testar a nossa capacidade de adivinhação...
        Os parques de campismo são outros equipamentos onde é inevitável fazer comparações, a começar pelos preços praticados. Muito mais caros, principalmente os espanhóis e com muito menos qualidade, em geral. Em Portugal, consegue-se facilmente encontrar parques que custam em média 10€ por noite ( 2 pessoas, autocaravana e electricidade) enquanto em Espanha é difícil encontrar algum que cobre menos do dobro, ou seja 20 €. Já a qualidade dos parques portugueses é, em média, muito superior à dos espanhóis e franceses. E os que se nos equiparam, ficam por preços quase equivalentes aos cobrados por um quarto num hostal... As casas de banho são menos espaçosas e muitas vezes degradadas e sujas; na maioria dos parques só há pontos de água nas casas de banho, enquanto em Portugal há torneiras espalhadas por todo o lado; com os "pimenteiros" de electricidade passa-se o mesmo, havendo parques em Espanha que têm os caminhos interiores completamente às escuras e muitas áreas e alvéolos sem qualquer ponto de electricidade. Até os arranjos interiores deixam muito a desejar, havendo alguns que pouco mais são que um pinhal com uma vedação à volta, uma casa de banho no meio e onde se cobra 18 ou 20 € para ficar. O que têm  melhor que nós é o respeito pelos outros, pelas horas de silêncio e outras regras existentes.
       Uma das particularidades que sempre nos agradou nos nossos passeios, foi a grande frequência com que encontrávamos fontes à beira das estradas, onde nos refrescávamos e dessedentávamos, especialmente


no Verão. Hoje, infelizmente, muitas secaram, mais por incúria e vandalismo do que por alterações ambientais e as que resistem tornaram-se duvidosas e arriscadas quanto à qualidade das suas águas. Em Espanha e França, são praticamente inexistentes.
      Achámos curioso que as rádios passem quase exclusivamente música do seu país, em Espanha cantadas em castelhano, em França em francês. Em Portugal é o que sabemos...
      Nos supermercados, tentámos descobrir artigos portugueses, o que se revelou um exercício quase impossível. Mesmo em produtos onde somos relativamente fortes, como as conservas de peixe ou os vinhos, só nas grandes cadeias se encontrava um ou outro artigo. Apenas num supermercado Intermarché, perto de Carcassonne, havia um pequeno canto destinado a produtos não franceses e nesse restrito sector vimos umas garrafas de vinho do Porto! Quanta diferença dos nossos, efectivamente! Ali defende-se com vigor os produtos locais. Quanto a preços, são bem mais caros todos os produtos frescos, quer sejam legumes, frutas, peixes ou carnes.
        Outra curiosidade foi a qualidade dos parques automóveis. E aqui gostaria de salientar a nossa surpresa pelas inúmeras viaturas de marca Dacia, em França, na altura praticamente desconhecida no nosso país.
         E por fim, a comida e os restaurantes. Que nos perdoem os que exaltam a comida mexicana, argentina, tailandesa, japonesa ou israelita. Para mim, a melhor comida serve-se em Portugal!


E já agora, a bebida... E na bebida tanto cabe o vinho como a água! Não gosto do sabor da água francesa. Quando saio já transporto dois ou três garrafões de água portuguesa. E o pão? E o café? Ao fim de duas semanas, sou capaz de fazer, como já aconteceu, 700 Km para vir comer uma posta mirandesa a Gimonde... E levantar pela manhã num parque de campismo português, ouvir o apito de uma carrinha, o portão traseiro que se abre e... o cheirinho de várias espécies de pão fresco e macio, os belos e irresistíveis pastéis de nata e outros mimos irrecusáveis, que nos fazem lembrar, sem saudades, a invariável "baguete" espanhola, quase insípida e dura como um pau, ao fim de algumas horas?
      Apesar de todas as vicissitudes, dos momentos menos bons, do ambiente depressivo, é sempre bom voltar ao nosso país. É esta a nossa terra, é aqui que pertencemos e é aqui que nos sentimos bem. Há o ir lá fora passear, mas... Há o ir e o voltar!

sexta-feira, 20 de abril de 2012

FRANÇA 2010 - 7

   No dia seguinte, como habitualmente, levantámo-nos aos primeiros alvores da madrugada e deparámo-nos com um espectáculo maravilhoso, apenas acessível a quem se levanta bem cedo: o sol ainda não aparecera, embora já houvesse luz suficiente para ver as montanhas recortadas num horizonte meio escarlate, meio violeta, semi-tapadas por uma bruma que se ia dissipando, qual véu puxado delicadamente por mãos invisíveis que foi pouco a pouco mostrando primeiro o campanário da igreja e depois todo o pequeno aglomerado que constitui a simpática povoação. Ficou registado na nossa memória, para um possível regresso.

Massat
Parque de campismo de Massat

       Atravessámos a fronteira por S. Béat, a caminho de Vielha, optando por não atravessar o túnel, com 5 Km de comprimento, muito estreito, com trânsito intenso e velocidade reduzida. Percorremos assim uma das mais bonitas zonas dos Pirenéus, que passa pela estação de desportos de Inverno e pistas de esqui


de Baquera-Beret, continuando por Barbastro, Huesca, Tudela, embrenhando-nos depois no paraíso vinícola de La Rioja, por Logrono, província onde passámos a noite, na pequena cidade de Najera, num parque de campismo que não passava de um quintal de uma residência, mas onde nos cobraram 25€ pela pernoita... No dia seguinte, depois de observarmos à distância uma grande quantidade de grutas escavadas nas montanhas de arenito e argila que rodeiam a saída sul da cidade, utilizados na época medieval pelos

Najera
 peregrinos do caminho francês de Santiago que ali se refugiavam de noite, dos salteadores que infestavam aquelas paragens, prosseguimos rumo a um objectivo que nos perseguia há muito tempo: a abadia de Sto
Domingo de Silos.

Sto Domingo de Silos
 
 Chegámos debaixo de calor intenso. Estacionámos a autocaravana num parque muito grande, mas um pouco afastado do aglomerado que rodeia o conjunto composto pelo mosteiro beneditino com seus belos claustros românicos jardins e fontanários. É um local onde se bebe espiritualidade, propício a alguns momentos de introspecção. Chegámos a tempo de ouvir cantar a oração da Hora Média (hora sexta, 12.00 H), em gregoriano, pelos monges que tão famosos ficaram depois de gravarem um disco em 1994.


Alimentado o espírito, coube a vez ao corpo. Satisfeitos assim, corpo e alma, prosseguimos por Valladolid, Tordesillas, Zamora e entrámos em terras lusas pela fronteira de Quintanilha, para pernoitarmos em Bragança, no parque do Inatel.


quinta-feira, 19 de abril de 2012

FRANÇA 2010 - 6 (ALBI)

     Por fim , era tempo de rumarmos mais para Sudoeste, começando a fazer o caminho de regresso, em suaves etapas que nos iam permitindo visitar algumas localidades que nos mereciam o interesse. Assim, dedicámos um domingo para desfrutar de Albi, a cidade que foi o centro do movimento dos Cátaros ou Albigenses. Tem como principais pontos de interesse a catedral de Ste-Cécile, imponente e que é a maior

Catedral - Albi

catedral de tijolo do mundo, construída depois da cruzada contra os Cátaros, como símbolo do poder e da grandeza da Igreja de então, ao lado da qual está o museu Toulouse-Lautrec, que reúne a maior parte da colecção de obras deste pintor, aqui nascido no século XIX. Há um grande parque de estacionamento

Museu Toulouse-Lautrec



mesmo ao lado da catedral, em pleno centro da cidade. Depois do almoço, demos um passeio de barco pelo rio Tarn e houve ainda tempo para assistir a um concerto na catedral, num fabuloso orgão de tubos, recentemente restaurado. No dia seguinte, despedimo-nos desta bonita cidade, continuando a rumar a

A sesta do "comandante"...



Embarcadouro - Rio Tarn - Albi


Catedral de Albi vista do rio Tarn

Albi - ponte sobre rio Tarn
Albi - Rio Tarn
Sul, aproximando-nos da fronteira espanhola. Entre Foix e St-Girons, descobrimos uma cidadezinha de montanha, um pouco mais a Sul, chamada Massat, que é um verdadeiro encanto. Ali pernoitámos, no parque de campismo municipal, muito agradável e acolhedor.