terça-feira, 17 de abril de 2012

FRANÇA 2010 - 5 (GORGES DU TARN)

    Seguimos pois pela estrada que sai de Millau, ladeada nos primeiros quilómetros pela via férrea e que tem por fiel companhia o rio Tarn. Percorridos 30 quilómetros, começa o verdadeiro espectáculo. A estrada estreita-se, apertada em profundos desfiladeiros onde em alguns locais nem se consegue ver o céu,


intercalados por uma sucessão de túneis onde só cabe um carro. De quando em quando, aparece um lugarejo de casas medievais equilibradas de forma instável sobre penhascos, povoações só acessíveis por


barco. São hoje aproveitadas para residências de férias e pontos de paragem para os inúmeros praticantes de desportos náuticos que descem o rio. Os castelos e as aldeias encantadoras sucedem-se em profusão, até à mais emblemática de todas, St-Enimie, uma verdadeira jóia sempre cheia de entusiastas da canoagem, da observação de aves, ou simplesmente das coisas belas, como nós. Nesta zona, apesar dos parques de campismo se multiplicarem, por vezes com distâncias de menos de um quilómetro entre eles, muitos estavam lotados e era preciso chegar cedo para conseguir um lugar agradável junto do rio. Decidimos estabelecer ali uma base por três dias, para explorar a zona mais próxima, incluindo a célebre "Corniche des Cévennes", mítica estrada de montanha construída no princípio do século XVIII, pelos soldados de Luís XIV. E por ali vagueámos três dias, explorando aldeolas de montanha, cascatas, grutas, abismos...

Castelbouc

segunda-feira, 16 de abril de 2012

FRANÇA 2010 - 4 (CARCASSONNE)

     É linda de facto, Carcassonne! Uma cidadela medieval rodeada por impressionantes muralhas, torreões, fossos, fortalezas. Entrando pela "Porte de la Cité", desembocamos num meandro de ruas labirínticas, plenamente ocupadas por hordas de turistas, que se atropelam à entrada de lojas de artesanato e souvenirs, bares e restaurantes. Apesar de detestarmos confusões e multidões, gostámos muito desta grandiosa cidade

Carcassonne
repleta de história. Existem inúmeros parques de estacionamento nas cercanias da cidade, com centenas de lugares disponíveis, sendo um, enorme, para autocaravanas.

        Vista Carcassonne, apontámos para o objectivo seguinte: o viaduto de Millau. Há muito tempo que estava nos nossos planos a exploração deste viaduto. Para a maioria das pessoas é talvez apenas mais uma ponte, de uma também vulgar auto-estrada. Mas não é. Não se distingue apenas por ser uma das mais altas pontes do mundo, com pilares mais altos que a torre Eiffel, mas por se tratar de uma verdadeira obra de

Viaduto de Millau

arte, de uma autêntica maravilha da engenharia e da arquitectura modernas, que vale a pena apreciar de todos os ângulos. E foi o que fizemos! Acedemos pela entrada 46 da auto-estrada A75 e saímos na 45. Este pequeno trajecto, entre uma saída e a outra imediata, apenas para passar em cima do viaduto, custou-nos 11,90€, numa auto-estrada gratuita na maior parte do seu percurso. Logo após o final do viaduto, existe uma grande área de serviço que tem um caminho íngreme que dá acesso a um miradouro com uma vista


privilegiada para o viaduto, pois ficamos muito próximo e a um nível ligeiramente acima do mesmo. Ali ficámos por longos minutos a observar a grandiosidade daquela maravilha, resultado da técnica e engenho humanos postos ao serviço da modernidade. Descemos depois até à cidade de Millau e seguidamente, no intuito de observar a ponte por baixo, enfiámo-nos por umas estradinhas sinuosas, único acesso a algumas aldeias remotas por que íamos passando, da largura de apenas um carro e sem pontos de cruzamento, sempre à beira de rios. Felizmente o trânsito era escasso e após alguns quilómetros algo desconcertantes e com alguns calafrios, reencontrámos a silhueta do viaduto a aproximar-se e parámos mesmo por baixo, junto a um dos pilares, um colosso de betão, com uma altura a perder de vista.

       Terminada assim a vistoria completa ao viaduto de Millau, era altura de partir para a exploração das "Gorges du Tarn".

domingo, 15 de abril de 2012

FRANÇA 2010 - 3 ( A ROTA DOS CÁTAROS)

    Atingido o primeiro objectivo, partimos para o seguinte: a Rota dos Cátaros. Os Cátaros, também conhecidos por Albigenses, eram uma seita que fez oposição à corrupção existente no seio da Igreja no século XIII. Por efeito de intrigas entre o poder político representado pelo rei de França e o Papa, este ordenou uma cruzada contra os Cátaros, que se prolongou por mais de 30 anos, conduzindo a massacres de dezenas de milhares de pessoas, imolações e outros episódios marcados por grande violência e crueldade. Tentando escapar, estes refugiaram-se em castelos inexpugnáveis, erigidos alguns anos antes em cumes impressionantes, que só podiam ser vencidos através de cercos de muitos meses, como aconteceu em Quéribus, Peyrepertuse,

Castelo de Quéribus
 e que teve o seu desfecho em Montségur em 1244, onde, no seu castelo num local que parece um ninho de águias, no cimo de um rochedo a 1215 m de altitude viveram refugiados mais de 500 Cátaros durante
Castelo de Montségur

10 anos. Após um cerco de 10 meses, que incluiu um terrível Inverno pirenaico, tudo acabou com duas

Castelo de Montségur
centenas queimados vivos numa pira, num local que é hoje recordado por um pequeno monumento


com uma cruz cátara, no início da íngreme subida para o castelo. Ficámos boquiabertos quando chegámos ao parque de estacionamento instalado no sopé do monte onde está implantado o castelo e olhámos para


cima do impressionante rochedo que parece ali colocado propositadamente para receber aquele derradeiro refúgio, apenas acessível por um estreitíssimo carreiro de pedra e lama, o qual ao cabo de uma extenuante e demorada subida desemboca finalmente na porta de armas do castelo. É bom ficar ali a recuperar o fôlego

embrenhados no silêncio apenas entrecortado pelo vento ou pelo grito de alguma ave de rapina, olhando a magnífica paisagem em redor e tentando recuar no tempo, sete séculos atrás...
      Descemos de novo e, possuídos por súbita melancolia, partimos de seguida rumo à linda cidadela fortificada que teve também papel central no decurso da cruzada contra os Cátaros: Carcassonne.

sábado, 14 de abril de 2012

FRANÇA 2010 - 2 (LE TRAIN JAUNE)

    O dia seguinte foi dedicado a percorrer metade do trajecto, entre Villefranche e Mont-Louis, com regresso pela mesma via, num percurso espectacular, que fez as delícias de alguns fanáticos da ferrovia, como é o nosso caso.

Esta linha de via estreita, tem composições praticamente de meia em meia hora em ambos os sentidos, sempre apinhadas nos meses de Verão, de gente entusiasmada, quase todos turistas de máquinas fotográficas e de filmar aperradas nas mãos, disparando freneticamente a cada curva, a cada ponte ou viaduto, a cada entrada num dos incontáveis túneis.

    Duas das carruagens são descobertas, com bancos corridos, o que confere um acrescido interesse a quem ali consegue arranjar um lugar. Tem a particularidade de ser electrificada, através de um terceiro carril que corre paralelo aos outros, com energia fornecida por uma barragem construída expressamente para o efeito. É uma linha de montanha, que atravessa cenários grandiosos, que teve que vencer grandes desníveis de terreno, desfiladeiros abruptos, gargantas de rios, o que torna este percurso de uma grande beleza paisagística.

Aconselhamo-la vivamente a todos os entusiastas dos comboios, especialmente os revivalistas da via estreita em trajectos de montanha. Era perfeitamente perceptível o carinho de todos os naturais e residentes na zona, por este carismático comboio. Ele nasceu como forma de quebrar o isolamento que a orografia da região determinava e remetia àquelas populações há cem anos atrás, especialmente nos longos Invernos em que a neve isolava aldeias durante semanas ou mesmo meses. Mas ainda hoje, com acesso a meios de transporte e vias de comunicação inimagináveis há algumas décadas, há chefes de família que no Inverno, quando se deslocam em visita a parentes e amigos em aldeias vizinhas e são surpreendidos por súbitas borrascas, muito frequentes em zonas de montanha, colocam a família de regresso em segurança no Train Jaune e vão eles sòzinhos no automóvel, pelas perigosas estradas de montanha, com terríveis declives, sem qualquer protecção em boa parte do trajecto, como pudemos constatar...

 
    Na década de oitenta, também os caminhos de ferro franceses tentaram encerrar esta linha, com o pretexto de falta de rentabilidade, mas a forte oposição de toda a população servida pela linha, coadjuvada pelos poderes autárquico e regional e sucessivas greves dos trabalhadores ferroviários da região, solidários com os seus colegas e em defesa de um "ex libris" de toda a zona, acabaram por inverter esta decisão, levando a um grande investimento na modernização da infraestrutura e do material circulante, mantendo as composições antigas com o conforto e segurança da actualidade. Inevitavelmente, fiz uma comparação com a nossa linha do Tua, onde se poderia fazer outro tanto, provavelmente com resultados não tão imediatos nem tão lucrativos, mas certamente muito positivos para o turismo da região, para a fixação da população e seu benefício imediato e retorno financeiro a médio e longo prazo. Mas quem é que gere e toma decisões a médio e longo prazo em Portugal?


FRANÇA 2010

    Decidi continuar com a descrição da viagem a França, apesar da destruição das imagens, como referi. Foram "salvas" algumas, num portátil e eventualmente recorrerei a imagens retiradas da internet.

terça-feira, 20 de março de 2012

FRANÇA 2010

     Quero pedir desculpa aos eventuais leitores deste blogue, por ter interrompido a descrição da viagem a França, logo no seu início. É que me aconteceu um percalço informático, que me apagou os registos do disco onde estavam todas as minhas fotografias dos últimos seis anos, imprudentemente sem cópias de segurança. Ninguém lamenta mais do que eu, como é óbvio. Foi preciso começar com a viagem a França para isto acontecer... Assim, ficamos apenas com a introdução, pois apesar do texto estar integralmente escrito, sem a ilustração das fotos, não tem o realce que merece.

domingo, 11 de março de 2012

FRANÇA 2010- 1 (Villefranche de Conflent)



       Como o Verão se aproxima a passos largos (no calendário, porque meteorologicamente já cá está), decidi colocar no blogue uma viagem efectuada em Julho de 2010. Apesar do tempo já decorrido, poderá servir de ajuda ou de sugestão a alguém que ainda esteja indeciso sobre o destino a escolher para este ano. A zona é o sueste de França com especial relevância para as Gorges du Tarn.


       Todos os anos elegemos uma restrita zona para explorar o mais exaustivamente que possamos, durante duas semanas, no Verão. Nos últimos anos temo-nos dedicado ao Norte de Espanha e ao Sul de França. Este ano (2010), coube a vez ao Languedoc/Roussillon, tendo como objectivos principais a cidade de Carcassonne e a Rota dos Cátaros, o viaduto de Millau, a zona de Gorges du Tarn e o comboio turístico "Le Train Jaune", que este ano comemorou 100 anos de existência, precisamente no dia em que nele viajámos, 20 de Julho de 2010.


A tão feliz e inesperada efeméride, acrescentámos ainda nesse dia as nossas bodas de prata, transformando-o assim numa jornada plena de alegria e significado.


      O meio de transporte utilizado, foi a pequena autocaravana de que dispomos e que nos permite continuar a fazer o que sempre nos motivou nas nossas viagens: o contacto com a Natureza, a exploração de todos os recantos, aldeia a aldeia, privilegiando as estradas secundárias e municipais, por vezes até caminhos de terra, utilizando apenas as auto-estradas nas grandes deslocações e travessias de aproximação à zona escolhida.

      Assim e como somos desde sempre apaixonados pelo rio Douro, seus fãs incondicionais e sua visita assídua, decidimos passar a primeira noite junto do seu berço, perto de Vinuesa e da Laguna Negra de Urbion (Sória), onde nasce. Como o destino era o Sueste de França e o tempo curto, havia que atravessar Espanha o mais rapidamente possível, tentando também assim escapar o melhor que pudéssemos ao intenso calor que se fazia sentir. Deste modo, ao final do segundo dia chegávamos ao parque de campismo escolhido, na cidadezinha francesa fortificada de Villefranche de Conflent, ponto de partida da turística linha de comboio que este ano comemora o seu centenário, como já se disse.